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POWERPOINT E O ABUSO DAS NOVAS TECNOLOGIAS EM SALA DE AULA PDF Imprimir E-mail
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Escrito por Ivan Fortunato   
Seg, 25 de Janeiro de 2010 13:34

Ivan Fortunato[1]

 

O debate sobre as novas tecnologias de informação e comunicação, em especial na educação, é recente. Percebem-se nas instituições de ensino desembolsos enormes com micro-computadores (em prol da modernidade), roteadores para conexão sem fio à rede www (em prol do acesso ilimitado à informação), circuitos fechados de televisão e aparelhos que reconhecem os alunos, professores e funcionário pela impressão digital (em nome da segurança), dentre muitos outros.

De toda tecnologia disponível, resolvi abordar o data-show (traduzido ao pé da letra como exibidor de informação, isto é, um aparelho que serve para projetar, em uma grande tela, o conteúdo disponível em um micro-computador), e seu complementar PowerPoint, programa de criação de slides. Essa escolha reside, principalmente, no fato desse programa ter se tornado instrumento indispensável nas salas de aula, tanto para professores que economizam seu tempo na lousa, quanto para os alunos que economizam seu tempo no caderno.

 

O data-show e o PowerPoint pressupõem inúmeros benefícios, como agilidade na preparação das aulas, disponibilização de texto em letra amplamente legível aos alunos (letrados), facilidade de compartilhar seu conteúdo, dentre outros, inclusive permitindo que o professor seja criativo (em termos de cores e figuras) e acrescente elementos lúdicos (fotos, imagens, sons, textos e vídeos) e/ou do cotidiano como forma de aproximar o alunado das discussões pertinentes à aula.

 

Em contrapartida, essas tecnologias também carregam implicações, e o recorte aqui apresentado é justamente a sua utilização deficitária. Entendo que há, basicamente, três fortes distorções no emprego do data-show e do PowerPoint em sala de aula: (i) inflexibilidade e sedação do processo criativo; (ii) engessamento de informações e; (iii) esvaziamento da figura docente.

 

O propósito final desse artigo não é doutrinar práticas educacionais, mas, somente, originar debates sobre a docência formadora do pensamento crítico. Na descrição de cada item há um julgamento de valor (que não deve ser entendido como dogma), ao mesmo tempo em que possíveis alternativas são apresentadas:

 

1. Inflexibilidade e sedação do processo criativo. Visualize a seguinte cena, freqüente nas instituições de ensino: o professor (ou professora) chega quase no horário de começar a aula, retira da bolsa seu pen-drive e/ou um DVD e solicita ao apoio técnico um computador com data-show; infelizmente, não há equipamentos disponíveis, e/ou o equipamento não liga, e/ou o sistema é incompatível. O que acontece com a aula nesse(s) caso(s)? Perde-se em sua estrutura e objetivos.

 

Como solucionar tal problema (recorrente)? A situação descrita não é solucionável, mas previsível, isto é: ao preparar o material para a aula, o (a) professor (a) deve ter em mente que a tecnologia é passível de falhas e perguntar-se o que poderá ser feito nesse caso, isto é, carregar na bolsa, além do pen drive, um ‘Plano B’.

 

2. Engessamento de informações ou, como prefiro, apodrecimento de informações. Uma aula preparada em PowerPoint para ser projetada no data-show corre o risco (sério) de permanecer a mesma por meses e até anos e, pior do que propagar-se no tempo, é multiplicar-se no espaço pelo compartilhar de slides entre os colegas professores. Qual o problema dessa amplificação? Os conteúdos e as verdades científicas modificam-se (e também se ampliam) de forma veloz, o que exige do professor constante atualização em seu campo do saber, logo, seus slides também demandam atualizações.

 

3. Esvaziamento da figura docente. A recém (cerca de três décadas) expansão da utilização das tecnologias da informação na sociedade vem provocando mudanças nas relações humanas, distanciando as pessoas. Dentro das escolas, essas mudanças são visíveis e traduzem-se nas transformações dos papéis de aluno e professor. Nessa nova lógica, alunos evitam as aulas recorrendo aos seus iPods, iPhones etc. e demandam aos professores que o material das aulas seja eletrônico e disponibilizado via e-mail (correio eletrônico). O papel de professor, que sempre foi determinado pela função de transmissor de saberes, reduz-se à função de distribuidor de mensagens eletrônicas (que raramente são lidas).

 

De todas as implicações anexas à crescente utilização do PowerPoint na sala de aula, esse item é o mais nevrálgico. Sua solução não é simples e reside na reformulação de todo processo educacional que continua preso ao modelo tradicional, já que a comunidade intelectual tem se ocupado com a produção de novas técnicas de ensino para o mesmo paradigma. A educação baseada no tradicional, porque mecânica, atua com a manutenção do status quo; a verdadeira transformação social, usual nos discursos ideológicos, demanda novos modos de ensinar e aprender.

 

Não basta migrarmos do quadro-negro para a lousa digital, do retro-projetor para o data-show, da cartilha para o PowerPoint, do professor transmissor para o professor facilitador; as salas de aula continuam, a figura autoritária do professor continua (ainda que atualmente seja uma pseudo-autoridade), as aulas começam e terminam com um sinal (barulhento) condicionante, ainda há provas oficiais (elaboradas sob a ótica multidisciplinar, mas ainda disciplinar), e assim por diante. Melhorar o processo significa manutenção do processo; a educação pede uma revolução.

 

 



[1] Pedagogo pela UNESP, autor do livro Caminhos de Fortuna, Psicodramatista, Mestrando em Comunicação e sócio-diretor da Consturerhe Consultores Associados, consultoria em educação. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. .

 

 

Autor deste artigo: Ivan Fortunato - participante desde Qua, 06 de Janeiro de 2010.

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