7 de setembro: Dia da Pátria ou Feriado?
Professor de USP defende a celebração de datas na escola para criar valores nos alunos
Denúncias de corrupção, desigualdade social, descrédito. Há muitos motivos para o desânimo quando pensamos na situação atual do país. Mas o "professor não pode se dar ao luxo de ser desiludido, de contaminar os outros com sua ocasional desilusão." Essa é a opinião do professor Nílson José Machado, da Faculdade de Educação da USP, que há anos trabalha com formação de professores.
Nessa entrevista realizada por internautas do EducaRede, o ex-chefe do departamento de Metodologia da FE/USP dá uma aula sobre a importância de se comemorar as datas coletivase pessoais na escola. "Se nada comemoramos, é como se nada valesse a pena, como se não tivéssemos valores". Para o professor Nílson, as datas são referências de valores que precisam ser trabalhadas com os alunos. Por mais desanimados que possamos estar, "devemos comemorar, mesmo assim. É o simbolismo da data que está em questão. É o que gostaríamos que a data representasse que justifica a comemoração".
Direto nas respostas e com uma redação gostosa de ler - adquirida através dos muitos livros didáticos e infantis que já escreveu - o prof. Nílson ilumina os valores humanos na entrevista a seguir. Confira!
Cristina: O senhor é favorável a comemorar o Dia da Independência na escola?
Prof. Nilson: Prezada Cristina, o Senhor está no Céu! Vamos de "você", por favor. Eu sou inteiramente favorável a que se comemorem datas fundamentais, que fazem nossa história, pessoal e coletiva. Quais seriam essas datas, é outro assunto. Comemorar é manter na memória junto com os outros. É cultivar valores. É dizer junto com os outros: nós achamos que isto é valioso! Se nada comemoramos, é como se nada valesse a pena, como se não tivéssemos valores . Agora, acho particularmente interessante, ainda que se possa discutir, a comemoração de nossa independência. Simboliza muito para nós como coletividade. Nós temos direito, no entanto, de escolher as datas a serem comemoradas. Se não for esta, deverá ser outra, com outro simbolismo importante. Não é possível é viver sem comemorar nada...
Cristina: Porque devemos "cultivar valores coletivos", como você disse?
Prof. Nílson: Porque sem valores, Cristina, nós nos perdemos. Nós não vivemos sem projetos, sem termos metas para perseguir. Ma não vale qualquer meta. Há metas que valem, outras que não valem. Como escolher? Precisamos de referências. Desde pequenos, buscamos essas referências. Nos contos de fada, nas histórias infantis, há o bem e o mal, há o herói e o bandido, há a bruxa malvada e a fada madrinha etc... Os valores constituem um cenário culturalmente construído, socialmente acordado. E esse cenário é que orienta nossos projetos. Quando escolhemos uma meta, o fazemos porque a achamos valiosa, achamos que vale a pena lutar por ela, buscar por ela.
José Amilton C. da Silveira: A comemoração das Datas Nacionais deveria ser feita se as homenagens em torno de determinada data se fundamentassem em críticas construtivas aos problemas políticos, sociais e econômicos vividos pelo país. Não se concebe, por exemplo, comemorarmos a indepedência do Brasil, quando, em todas as formas, o Brasil não é independente.
Prof. Nílson: Caro José Amilton, você está coberto de razão em sua observação. No entanto, devemos comemorar, mesmo assim. É o simbolismo da data que está em questão . É o que gostaríamos que a data representasse que justifica a comemoração. Comemorar é manter na memória - ainda que seja o desejo de independência, de autonomia em sentido político, econômico. Precisamos lembrar disso - e lutar por isso, por meio de nossos representantes, pelos canais legitimamente constituídos.
Enghaw1: Você acha que a corrupção pode desmotivar a comemoração do dia 7 de setembro?
Prof. Nílson: Não acho, caro. Seria como desanimar diante da tarefa difícil mas necessária de construir a cidadania, de construir nossa identidade como nação. Existem pessoas honestas, muitas pessoas honestas, muitas vezes sem vez e sem voz, na política ou fora dela. É preciso dar-lhes vez e voz. É preciso acreditar e lutar para que a integridade que se situa no fundo de cada ser humano, às vezes adormecida, venha à tona e finalmente prevaleça. Não acreditar nisso é entregar o ouro ao bandido.
Jorge M. de Oliveira: Por que devemos comemorar as datas nacionais? Tenho aluno de 5ª a 8ª e de todo o Ensino Médio, como trabalhar essas datas cívicas?
Prof. Nílson: Caro Jorge, as comemorações são importantes para consólidar nossos valores, nossa história, tanto pessoal quanto coletiva. O significado da vida - nossa vida como pessoa ou a vida de nosso país - constitui-se por meio de uma narrativa, de nossa história de vida. Nessa história, é preciso pôr em relevo os acontecimentos marcantes, os eventos mais significativos, que vão servir de referências em nossa narrativa. Naturalmente,o significado de cada data deve ser examinado com atenção, antes de se partir para a mera comemoração. Estudar história é fundamental.
Diana: Você acha que nós, professores, devemos relacionar uma data comemorativa à situação atual do país? Isso não poderia desmotivar a comemoração? Ou separamos as duas coisas?
Prof. Nílson: Diana, não é possível separar o significado da data da situação atual. Mas a comparação não me parece que possa ter qualquer sentido de desânimo, de descrença, de desilusão. Professor não pode se dar ao luxo de ser desiludido, de contaminar os outros com sua ocasional desilusão.
Rogério: Como possos trabalhar a data 07 de setembro com crianças de 2 a 6 anos?
Prof. Nílson: A forma de fazer isso pode variar muito, de escola para escola, de contexto para contexto. Mas não tenho dúvidas de que crianças de 2 a 6 anos precisam muito de referências simbólicas, de orientações valorativas, de repertório de papéis, de situações, de exemplos do que é certo e do que não é.
Ana Lúcia: Você acha importante cantar o hino nacional na escola, como era antes?
Prof. Nílson: Cara Ana Lúcia, ouvir o Hino Nacional em situação adequada, no momento certo, emociona todo mundo, certamente. Quem não se emociona, é ruim da cabeça ou doente do pé. Mas a situação precisa ser adequada. A banalização das comemorações é que leva ao descrédito das mesmas.
Rogério: por que hoje em dia o desfile 7 de setembro não é tão comemorado como alguns anos atrás?
Prof. Nilson: O que ocorre, Rogério, é que há um distanciamento muito grande entre as aspirações do povo e o projeto nacional, que alguns chegam a achar que não existe. Não sabemos muito bem porque estamos lutando, o que estamos buscando. Há uma enorme distância entre o discurso e as ações concretas. É natural que percamos grande parte de nosso entusiasmo. Mas o governo é o maior responsável pelo distanciamento a que me referi.
Camila: Como faça para incentivar meus alunos da 7ª séries a participarem do desfile do dia 07 de setembro, sem achar tudo isso um "saco" (desculpe o vocabulário)?
Prof. Nilson: Camila, você acidentalmente falou de "saco" e eu aproveito para lembrar que, na falta do que comemorar, os alunos da universidade criaram, há alguns anos, a "semana do saco cheio". Trata-se de uma brincadeira, mas é muito triste. Comemorar o "saco cheio" é de cortar o coração. Temos valores mais verdadeiros para manter na memória, certamente. Mas voltemos à pergunta. Não há dois caminhos para incentivar a comemoração: é imprescindível a rememoração do significado da data, o sentido da "independência". Aristóteles dizia que escravo é quem realiza o projeto dos outros. Enquanto não nos constituímos como nação, realizamos o projeto dos outros. Naturalmente, tal discussão conduz ao ponto central e difícil de responder: qual é o nosso projeto, hoje? Quais os valores que o delimitam, que o prefiguram? Pode ser difícil responder, mas é inevitável enfrentar tal questão.
Marlok: Professor, sou aluno da 6 série e gostaria de saber porque os jovens não se interessam por política, história do brasil e muito menos por essas datas?
Prof. Nílson: Marlok, não se interessar por política é uma forma de fazer política, omitir-se é uma forma de fazer parte... Compreendo que muitas coisas que ocorrem na política, na economia, nos levam a certo desconforto, a certo desalento. Mas desistir de participar é desistir de viver. E a vida é o valor maior, a vida vale a pena. Não apenas a vida em sentido biológico, mas a vida com a palavra, com a ação consciente, que é um fazer com a palavra. Uma das raríssimas coisas ditas pelo nosso atual presidente com a qual concordo é a de que notícia boa dá menos ibope do que notícia ruim. É preciso reverter isso. Existe muita coisa boa, muita gente boa agindo diariamente, pelo Brasil, em diferentes âmbitos, em diferentes contextos, independentemente das patacoadas governamentares, ou da cachorradas de parte dos congressistas.
Prof. Nílson: Foi muito bom conversar com vocês. Disponham do amigo aqui na Universidade. O tema dos valores é difícil, é um terreno pantanoso, às vezes minado, mas é inevitável para a Educação. Não podemos, não temos o direito de fugir dele. Abraço a todos.