07/10/2026

A Agenda Woke como o Resgate da Empatia

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Em 1903, o pintor Luc-Olivier Merson deu vida a uma obra que eternizou o poder da empatia: nela, vemos a cigana Esmeralda saciar a sede de Quasímodo enquanto uma multidão de rostos distorcidos assiste e zomba da cena. Fazendo dessa arte uma metáfora com o cotidiano, é deprimente notar que a nossa sociedade ainda espelha uma pintura de mais de 120 anos. O cenário político atual destila discursos vazios e narrativas manipuladas para que o povo defenda a exclusão em praça pública, sem compreender a real importância das pautas sociais.

Sob essa ótica, torna-se nítido o quão degradado está o debate público. A alienação dos eleitores mostra-se proporcional a essa engrenagem em que, ao votarem, muitos escolhem causas cuja relevância desconhecem. Na verdade, o conteúdo programático pouco importa; o que prevalece é a propagação de retóricas rasas que a população passa a defender como pautas legítimas. Esse ecossistema destila um misto de mentiras intencionais e manipulação da informação descontextualizada para a criação de falsas narrativas. Enfim, a falta de ética impera para a manutenção do poder.

As pessoas mais votadas em Minas Gerais e em São Paulo em momento algum buscaram o caminho da retidão ética. Afinal de contas, atuam como "mordedores de pilares"[1]. Tivemos, por exemplo, a deputada estadual mais votada em São Paulo, cuja principal bandeira incluiu a afirmação: “eu não acho que feminicídio seja algo que exista”. Essa postura ignora a realidade do próprio estado, pois, somente em 2025, houve um aumento de 8,1% nos casos de feminicídio de acordo com as Estatísticas Consolidadas da Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), atingindo o recorde de 266 mortes.

O aspecto mais melancólico é que, desses quase dois milhões de votos recebidos por ela, pode-se estimar que metade tenha partido de mulheres, já que o eleitorado feminino representa 53% do total. É aí que reside o problema: como alguém que sofre ou se enquadra no perfil de vítimas de violência vota em uma candidatura que invalida o seu próprio sofrimento e medo?

Da mesma forma, como o eleitorado vota em um deputado federal — o mais votado em Minas Gerais — que discursa sobre o combate à corrupção, mas, em apenas quatro anos, teve seu patrimônio aumentado em mais de 10 mil por cento? E como uma pessoa preta, uma mulher ou um indivíduo de baixa renda apoia quem afirma que acabará com a "agenda woke"? Esses cidadãos votam sem conhecimento de causa, sem consciência de classe ou discernimento político, agindo apenas por identificação superficial com o candidato, o que explicita o quanto a sociedade encontra-se doente.

A agenda woke é relevante justamente para reduzir as disparidades socioeconômicas, resgatando a dignidade de populações excluídas e em estado de vulnerabilidade social. Trata-se de um estado de alta conscientização a respeito de questões de justiça social, discriminação e desigualdade relativas a raça, gênero e sexualidade. O termo é oriundo do inglês woke, particípio do verbo to wake ("acordar"), e refere-se a um despertar social. Essa pauta foi levantada na metade do século XX para que os cidadãos afro-americanos se mantivessem alertas contra as injustiças raciais e a violência policial.

É sintomático notar que a parlamentar que ataca essa bandeira pertença ao estado de São Paulo, local onde a letalidade policial apresenta forte tendência de alta e registra uma das maiores curvas de crescimento estatístico nos últimos anos. Dando continuidade à evolução do conceito, foi a partir de 2014 que se inseriram nessa pauta questões ligadas aos direitos LGBTQIA+, ao feminismo, ao ambientalismo e à inclusão social. Afinal, se não trabalharmos a inclusão, repetiremos o trágico destino de Quasímodo[2]: aniquilaremos os diferentes que divergirem de nossas réguas tortas.

É exatamente isso que uma educação de qualidade busca. A agenda woke representa a busca legítima pela equidade, pelo combate aos preconceitos estruturais e pela ampliação de direitos das minorias. Trata-se, fundamentalmente, de humanidade. Como já dizia o velho adágio: se você não tem empatia por quem sofre, o problema está na sua falta de humanidade — e cabe à educação desenvolver esse protagonismo e senso humanitário em seus alunos.

 


[1]http://www.gestaouniversitaria.com.br/artigos/mordedores-de-pilar-quando-a-fe-e-instrumentalizada-pela-politica

[2] Quasimodo é o personagem central do livro Notre-Dame de Paris, da autoria de Victor Hugo, publicado em 1831. 

Assine

Assine gratuitamente nossa revista e receba por email as novidades semanais.

×
Assine

Está com alguma dúvida? Quer fazer alguma sugestão para nós? Então, fale conosco pelo formulário abaixo.

×