19/10/2026

A Cara da Educação: do quadro-negro à formulação de políticas no MEC

Servidores e técnicos do MEC relembram os desafios da sala de aula na educação básica, no ensino médio e na educação superior e contam como a vivência com alunos transforma a gestão pública em todo o país

GGabinetes, portarias, planilhas orçamentárias formuladas por gestores públicos que passam horas atrás das telas de seus computadores entre diversas reuniões. Talvez essa seja a ideia que muita gente tenha sobre o Ministério da Educação (MEC) e seu dia a dia. O que pode ser surpreendente, de fato, é que a gestão pública federal da educação só faz sentido porque é construída, pensada e executada por quem conhece de perto o cheiro do giz, o barulho do sinal no pátio e a rotina viva da sala de aula. Por trás das políticas nacionais, há professoras e professores que sentiram e continuam vivenciando a ansiedade da alfabetização, os desafios do ensino médio e as transformações da vida universitária.

Na realidade, garantir que a vivência da ponta guie a tomada de decisões no nível macro é o que dá alma ao trabalho diário do MEC. Dos materiais didáticos que chegam às crianças pequenas ao acolhimento de jovens e adultos à expansão das universidades, o "chão da escola" é o farol que conecta a burocracia estatal à realidade de milhões de brasileiros. 

Do lúdico ao pensamento crítico na alfabetização – Na educação básica, a transição da sala de aula para a gestão exige um olhar atento ao impacto que cada livro ou recurso pedagógico terá na vida de uma criança. Coordenadora-geral de Materiais Didáticos, da Secretaria de Educação Básica do MEC, Jaqueline Melo acumula duas décadas de magistério, com passagens pela alfabetização e educação de jovens e adultos (EJA) no Projeto Paranoá (DF). 

Jaqueline guarda na memória a sede de conhecimento que presenciou e a surpresa de um estudante ao aprender a grafia correta da palavra “alface, pois ele se surpreendeu ao descobrir que se escreve com L e não com U. Com C, e não com S. E a vontade dele de entender o motivo daquilo era tão grande. Ele queria tanto ler tudo, que isso me motivou a ser uma professora melhor". É esse tipo de memória afetiva que orienta suas decisões técnicas à frente do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). 

"A minha experiência como professora me ajuda sempre a remeter as decisões, do micro e ao macro, sempre com a lembrança dos meus estudantes e colegas que estão em sala de aula. Toda vez eu me pergunto como isso vai se dar na mão do estudante de seis, sete ou oito anos e como o professor vai utilizar o material de forma adequada e funcional. A gente busca fortalecer o programa do livro e do material didático sem, contudo, sobrepor a autonomia e a vontade dos docentes", diz Jaqueline Melo. 

Representatividade e escuta ativa no ensino médio e na EJA – Para quem atua no ensino médio e na educação de jovens e adultos, o desafio pedagógico passa pela construção de pontes entre o conhecimento científico e as histórias de vida dos alunos. Estagiária no gabinete da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi), Marina Reis é licencianda em sociologia e atua como alfabetizadora popular no Projeto Ler, em parceria com a Unifesp, voltado a idosos. 

Com 25 anos, considera-se uma docente em início de carreira, cuja trajetória inclui vivências em escolas públicas de Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal, onde sentiu a importância da representatividade de ser uma professora negra diante de turmas periféricas. No MEC, Marina acompanha o desenvolvimento de políticas públicas voltadas às diversidades, aplicando o aprendizado da gestão diretamente em seu planejamento de aula.  

"Estar dentro da Secadi e, ao mesmo tempo, na sala de aula, me permite ver os dois lados da cadeia. Todas as pautas que envolvem minorias – mulheres, pessoas negras, indígenas, populações do campo, entre outras – estão na secretaria. Transformar essas diretrizes políticas na prática pedagógica do dia a dia é o desafio que todos os professores enfrentam. Ver mulheres negras ocupando a gestão federal e a sala de aula mostra qual é a verdadeira cara da educação brasileira”, diz Marina Reis, estagiária da Secadi e professora. 

Formação universitária e o impacto real das decisões – Na educação superior, a formulação de diretrizes exige consciência sobre a complexa realidade dos estudantes brasileiros, que, com frequência, conciliam longas jornadas de trabalho, família e até mesmo grandes deslocamentos para acessar o ensino universitário. O coordenador-geral de Ensino e Planejamento Acadêmico da Diretoria de Desenvolvimento Acadêmico da Secretaria de Educação Superior (Sesu), Eduardo Cezari, é docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e soma mais de 20 anos de sala de aula e gestão universitária. 

Com doutorado em Educação em Ciência e Matemática, Cezari relembra, especificamente, do esforço de dois professores do interior do Tocantins que viajavam fins de semana inteiros para cursar a graduação. Para ele, a principal diferença entre a sala de aula e o MEC está na margem de teste: na docência, a simulação e o erro fazem parte do processo de aprendizagem; na gestão federal, qualquer medida gera impacto direto e imediato em todo o país.

"A grande diferença está no impacto. A sala de aula é um espaço de simulação e aprendizagem conjunta. Na gestão, não é possível ter muita experimentação: qualquer decisão tomada gera impacto imediato na vida do estudante, do professor e do técnico na ponta. Por isso, precisamos ter clareza, ouvir a rede e avaliar como cada política chegará ao cotidiano da universidade e da escola pública", diz Eduardo Cezari. 

O intelectual da educação e o compromisso com o futuro – Embora as rotinas de um gabinete ministerial e de uma escola pública tenham dinâmicas temporais distintas, os três servidores concordam que a essência da profissão permanece inalterada: o compromisso inegociável com a qualidade da aprendizagem e a transformação social. 

Ao olharem para a sala de aula a partir do ministério, os profissionais deixam mensagens de fortalecimento, valorização e esperança para os docentes de todo o país. 

Para Jaqueline Mello, o professor precisa ser reconhecido em sua dimensão plena: "o professor é um intelectual. Ele precisa entender de arte, cinema e cultura, articulando isso aos conteúdos tradicionais. A sala de aula é o lugar da intelectualidade brasileira". 

Já Marina Reis reforça a importância da resistência e do engajamento de base: "não dá para os professores desistirem. Precisamos de gente comprometida e engajada na ponta, acreditando no trabalho de base para que as políticas públicas realmente se concretizem". 

Por fim, Eduardo Cezari convida os educadores à escuta e construção colaborativa em um mundo que está em constante transformação tecnológica: "se queremos mudar a rotina escolar, a primeira coisa é sentar-se com os estudantes e ouvi-los. A educação hoje não é autoritária ou hierárquica, é um ambiente de colaboração mútua. Precisamos dar aos nossos jovens a segurança de que o mundo vai ser melhor". 

Assessoria de Comunicação Social do MEC  - 16.10.2026

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