“A cidade de São Paulo nos educa para a indiferença”
Em palestra na última sexta-feira (2) no Fórum Mundial de Educação, a professora Flavia Schiling, da Faculdade de Educação da USP (FE), apontou que a indiferença e o isolamento dos paulistanos são frutos, entre outros, da maneira como que a cidade educa seus habitantes.
A professora usou o trânsito excessivo como um exemplo. “Quantas horas nós não perdemos no trânsito todo dia em São Paulo? Para poder assistir ao Fórum, muita gente teve que passar algumas horas num carro ou num ônibus, agüentando um calor infernal. É a cidade nos punindo por sair de casa, nos condicionando a permanecer isolados, a não falar com estranhos”, explica Flavia.
A escola, para a professora, amplia esse condicionamento. Desde sua arquitetura, até o formato de carteiras e salas de aula, passando pela atitude dos professores, não há um estímulo para que os alunos se exponham, apresentem suas identidades e comecem a se libertar dessa condição de anônimos que a cidade lhes impõe. “Poucas escolas investem num espaço arborizado, aberto e amplo. Há o receio de que os alunos se dispersem, de que isso aumente a indisciplina e dificulte o aprendizado. Por isso o aluno é punido, devendo permanecer em ambientes fechados e bem controlados”, expõe a professora.
Em contraposição a essa característica de condicionar e punir, presente tanto na cidade quanto na escola, Flavia Schiling aponta para a possibilidade concreta de uma educação libertária. “Uma educação que amplie os nossos horizontes, as nossas ferramentas para lidar com o mundo”. A literatura poderia cumprir esse papel.“O Ferrez [escritor paulistano, autor de Capão Pecado, publicado em 2000], em uma mesa redonda, me contou que a vida dele mudou quando ele leu Madame Bovary (livro de Gustauve Flaubert, publicado em 1857). O livro o ajudou a visualizar um mundo muito maior do que a violência e a intolerância que ele via e sentia em São Paulo.O inspirou a escrever e a contar a sua história” revela a professora. (USP online)