A comunidade na escola: solução ou problema?
Por Adalberto Wodianer Marcondes*
Uma das opiniões mais comuns entre especialistas em educação é que a presença da família na escola é um dos principais caminhos para a qualificação do ensino nas escolas públicas. Onde isto acontece realmente os indicadores mostram uma grande evolução no ensino. Porém também existe a idéia de que é preciso “mobilizar” a sociedade para que ela participe da escola, como se fossem os pais os responsáveis pela ausência da família nas escolas.
Todo o discurso oficial e oficioso é favorável à presença da família na escola. Mas, de fato, a pergunta que deve ser feita é: a escola está preparada para absorver os pais e a comunidade em sua rotina cotidiana? Em que medida a direção das escolas públicas está capacitada para compreender o papel dos pais reunidos em torno das Associações de Pais e Mestres (APMs)?
As estruturas legais que criam as APM, os Conselhos de Escola, os grêmios estudantis e definem as responsabilidades de cada uma destas coletividades não levam em conta que nada poderá acontecer de bom se não houver a cumplicidade do diretor da escola com a comunidade. Mas o diretor é um representante do sistema na escola, e não um interlocutor da comunidade junto ao sistema. Professores, funcionários e diretores de escola se vêem constantemente ameaçados pela presença dos pais nas escolas pelo simples motivo de que a família está ali para ajudar, mas também para cobrar trabalho.
É mais fácil para os diretores administrarem suas escolas com APMs esvaziadas de pais e sem representatividade. Isto porque assim eles somente precisam de dois diretores, o executivo e o financeiro, para assinar os cheques das verbas repassadas para a escola pelo Fundo de Desenvolvimento da Educação (FDE), ou mesmo recursos obtidos pela exploração de serviços na própria escola, como a cantina ou outdoors – muitas escolas têm localização cobiçada pelas empresas de propaganda.
Todos os anos grupos de pais tentam mobilizar-se para formar as diretorias de APMs nas escolas públicas. Depois de eleitos descobrem que serão transformados em burocratas a serviço do Estado, que lhes dá muitas responsabilidades contábeis e muito pouca autonomia. Além disto, ficam por conta própria, porque a estrutura do Estado não prevê qualquer tipo de apoio técnico para a gestão de Associações de Pais e Mestres.
Pais interessados antes em participar do crescimento de seus filhos através da contribuição para a melhoria da qualidade de ensino, vêem-se enredados pelo jogo de interesses de diretores, funcionários e professores, cada qual atuando dentro de sua própria lógica corporativista e sem a visão de seu papel no complexo sistema de construção da cidadania de milhões de jovens.
As escolas públicas são terra de ninguém e utilizadas para o jogo político de burocratas do ensino não comprometidos com os estudantes, mas sim com a gestão de suas próprias carreiras dentro do estamento do Estado. Os pais que se envolvem nesta estrutura são logo desestimulados, porque suas ações são coibidas e minimizadas para que não ganhem visibilidade.
São milhares de escolas públicas em todo o País. Por que não temos exemplos às centenas de ações levadas a cabo por pais dentro de escolas públicas que são sucesso e referência para a melhoria da qualidade de ensino? São muito poucos os exemplos de sucesso. Na maioria das vezes acontecem porque os pais encontraram na unidade escolar um diretor comprometido. Sem isto é impossível sair das mesquinhas rotinas da gestão de interesses menores.
O apoio institucional para que os pais possam crescer e se desenvolver dentro da escola é fundamental, assim como é preciso preparar diretores, funcionários e professores para a complexidade das relações que se formam quando a comunidade se apodera da escola. Há conflitos. É preciso a maturidade institucional para lidar com os conflitos de forma construtiva, democrática e não excludente. O caminho mais facilmente adotado é o do esvaziamento das atividades familiares na escola. Desta maneira quem trabalha na escola consegue estabelecer suas rotinas (as mais descomprometidas possível) e levar adiante o cumprimento burocrático do calendário escolar.
A falta de comprometimento com a formação de cidadãos, e não apenas de levar a cabo alguns anos de formação escolar, está refletida no relacionamento entre os atores deste drama que se desenrola em cada uma das escolas públicas brasileiras. Apenas umas poucas se destacam por romper esta rotina da desconstrução do futuro.
A família deve fazer parte da escola, assim como a escola deve estar preparada para ouvir críticas da família. Não se construirá um futuro para o Brasil e de seus jovens a partir de uma participação submissa da sociedade nas escolas públicas.
* O autor é jornalista e diretor executivo da APM da Escola Estadual Prof. Antonio Alves Cruz, na Zona Oeste de São Paulo - SP