A Didática em Crise: Entre o Formalismo dos Manuais e a Realidade da Sala de Aula.
Por - Ivan Carlos Zampin: Professor Doutor, Pesquisador, Pedagogo, Graduado em Educação Especial, Docente no Ensino Superior e na Educação Básica, Gestor Escolar, Especialista em Gestão Pública, Especialista em Psicopedagogia Institucional.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2342324641763252
A proliferação de manuais didáticos repletos de "itens e subitens, regras e conselhos" representa um paradoxo no cenário educacional contemporâneo. Estes compêndios, que se assemelham a "receituários ou listagens de permissões e proibições", revelam-se cada vez mais distantes das complexidades reais da prática docente. Seu "excessivo formalismo" mascara uma profunda incapacidade de responder aos desafios concretos do ensino, especialmente no contexto brasileiro, onde as condições materiais e sociais impõem obstáculos que nenhum manual consegue antever ou resolver. A sofisticação teórica destes instrumentos, supostamente "enriquecida pela psicologia, pela análise de sistemas e por toda a técnica do ensino", contrasta violentamente com a realidade de um ensino que "continua piorando constantemente", levantando questões fundamentais sobre a validade e aplicabilidade destes recursos no cotidiano escolar.
A pergunta crucial que se impõe é: "estarão eles sendo utilizados? E se realmente estão, haverá em seu trabalho uma dose mínima de consciência, de adaptação, de espírito de busca e pesquisa? "A experiência cotidiana nas escolas sugere que, frequentemente, o que ocorre é a "evidente cópia ou transplante de modelos inadequados à realidade brasileira", gerando um divórcio entre teoria e prática que condena ao fracasso qualquer tentativa de melhoria substantiva do processo educativo. Este fenômeno não é casual, mas reflete uma concepção de educação que privilegia a forma sobre o conteúdo, a técnica sobre a reflexão crítica, a aparência de eficiência sobre a transformação real.
O "momento pedagógico é dos piores" porque, de fato, "reflete os problemas de uma sociedade doente, inflacionada, violenta e desigual". Neste contexto, esperar que a Didática, por si só, produza milagres é alimentar uma ilusão perigosa. Como bem alerta Saviani (2008), a educação não pode ser compreendida fora de seu contexto social mais amplo, sendo tanto produto quanto produtora das relações sociais vigentes. A didática, quando reduzida a um conjunto de técnicas neutras e descontextualizadas, converte-se em "componente de manipulação do homem, de violação dos seus direitos, de repetição do passado", perpetuando lógicas excludentes e aprofundando as desigualdades que marcam a sociedade brasileira.
A metáfora belicista presente no texto, sendo ela: "Enfrentar o amanhã com as armas de ontem é garantir, previamente, a derrota. Abandonar a luta, sob a justificação de falta de equipamento, é covardia". Isso, ilumina com precisão o dilema enfrentado pelos educadores. De um lado, a persistência em métodos e abordagens que se mostraram incapazes de responder aos desafios contemporâneos, de outro, a tentação da resignação diante das carências materiais e estruturais. Esta encruzilhada exige uma reinvenção radical da prática pedagógica, que supere tanto o formalismo estéril quanto o imobilismo justificado pela falta de recursos.
A saída para este impasse pode estar no reconhecimento de que, embora "não há verbas, não há material, entretanto, o recurso humano, o mais válido, existe, e aí está a estabelecer um aceitamento interno, capaz de acioná-lo". Esta constatação aponta para a necessidade de se construir uma didática a partir da realidade concreta da escola brasileira, valorizando o saber docente e a capacidade criativa dos educadores. Como defende Freire (1987), a verdadeira educação não se faz através da mera transmissão de conhecimentos, mas mediante um processo dialógico em que educador e educandos se reconhecem como sujeitos do processo de conhecimento.
Desta feita, Libâneo (1994) contribui para esta reflexão ao defender uma didática integrada à teoria educacional, que supere tanto o espontaneísmo quanto o formalismo vazio. Para o autor, a didática deve ser compreendida como mediação entre as finalidades educativas e a prática concreta em sala de aula, levando em conta as condições reais de trabalho docente e as características específicas dos estudantes. Esta perspectiva exige abandonar a lógica dos manuais prescritivos e investir na formação de professores críticos e autônomos, capazes de adaptar e recriar as orientações didáticas em função das necessidades concretas de seus alunos.
A experiência cotidiana nas escolas brasileiras demonstra que os professores desenvolvem, no exercício de sua profissão, saberes e competências que raramente são capturados pelos manuais tradicionais. Estes saberes da experiência, como os denomina Tardif (2002), constituem-se em recursos preciosos para a construção de uma didática verdadeiramente significativa e contextualizada. Valorizá-los significa reconhecer que a transformação da educação não virá da aplicação mecânica de receitas prontas, mas da reflexão coletiva sobre a prática, do compartilhamento de experiências e da coragem de inventar novas formas de ensinar apropriadas à realidade brasileira.
A superação da crise didática exige, portanto, uma mudança de paradigma, ou seja: em vez de manuais prescritivos, precisamos de espaços de formação continuada que valorizem a troca de experiências e a reflexão sobre a prática, assim, em vez de técnicas importadas de realidades distantes, necessitamos de abordagens pedagogicamente contextualizadas que levem em conta as especificidades da cultura brasileira, consequentemente, em vez da ilusão de neutralidade, assumimos o caráter político da educação e nos comprometemos com a construção de uma sociedade mais justa e democrática.
O reconhecimento dos limites da didática tradicional não deve levar ao abandono do esforço de melhorar a qualidade do ensino, mas sim à busca de alternativas mais adequadas e eficazes. Como bem sintetiza Vasconcellos (2002), o desafio é construir uma prática pedagógica que seja, ao mesmo tempo, teoricamente fundamentada e contextualmente situada, capaz de responder aos desafios do ensino sem cair nem no formalismo vazio nem no improviso irrefletido. Esta construção exige coragem, criatividade e, sobretudo, confiança no "recurso humano" como principal agente de transformação educacional.
Referências Bibliográficas
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.
SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. Campinas: Autores Associados, 2008.
TARDIF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.
VASCONCELLOS, Celso dos S. Coordenação do Trabalho Pedagógico: do projeto político-pedagógico ao cotidiano da sala de aula. São Paulo: Libertad, 2002.