A Era da Tecnoferência: O Silêncio que Afasta Pais e Filhos dos Livros
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Alguns positivistas acreditaram que a tecnologia alavancaria o IDH dos países ao incentivar e desenvolver a capacidade de leitura dos alunos por meio de tablets, computadores e outras Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). Todavia, a realidade tem mostrado que a dependência tecnológica tem afastado as pessoas de interações profundas, diferenciando-se do contato mais intenso que existia entre nossos antepassados. Embora se pensasse que a tecnologia implicaria no rompimento das distâncias, no atual contexto ela apenas agravou o afastamento social.
O Brasil sempre amargou posições baixas em pesquisas sobre o hábito de leitura. Recentemente, isso foi reforçado pelo Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância (IELS), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Brasil, a coordenação do estudo foi realizada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaPOpE/UFRJ), em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.
Vale ressaltar que a pesquisa apontou também as disparidades geradas pelas desigualdades socioeconômicas. O nível socioeconômico baixo tem relação direta com pontuações menores, visto que os prejuízos ao desenvolvimento são cumulativos e atingem mais a população preta, além de a vulnerabilidade econômica restringir a frequência de estímulos na infância[1].
As informações acima ganham um agravante oriundo da "tecnoferência". Segundo Frota e Eisenberg (2025)[2], esse conceito está relacionado às interrupções causadas por dispositivos digitais que “interrompem as interações humanas diárias, os diálogos e os momentos de conexão social”. De acordo com as pesquisadoras, essas interrupções têm sérias consequências no âmbito social, como conflitos conjugais, afastamento emocional, quebra de atenção e sentimento de exclusão. Além disso, causam prejuízos ao desenvolvimento infantil, problemas de comportamento, perda de rituais (como almoços em família que ficam fragmentados) e redução da modelagem comportamental, problemas que reverberarão no desenvolvimento cognitivo da criança.
Percebe-se que a tecnoferência é uma das variáveis que contribuiu para o resultado negativo levantado pela OCDE sobre o desenvolvimento de crianças de 5 anos. O levantamento comprovou que o hábito da leitura compartilhada frequente (de 3 a 7 vezes por semana) ocorre em apenas 14% das famílias brasileiras, enquanto a média internacional é de 54%. É dessa proporção (14% contra 54%) que surge o dado de que o brasileiro lê quase 4 vezes menos para seus filhos do que a média mundial[3].
O fato é que, se a família não lê para o filho, será difícil para ele desenvolver o hábito da leitura que alavanca a oralidade. Segundo Costa-Maciel e Bilro (2018)[4], “a oralidade é uma prática social interativa, com fins comunicativos, que se apresenta através de variados gêneros textuais materializados na realidade sonora”. Isso ocorre porque leitura e oralidade estão intrinsecamente ligadas, operando em um ciclo contínuo de desenvolvimento linguístico e cognitivo. Esse processo promove a ampliação do vocabulário, fornece expressividade, bagagem cultural e base fonológica, além de uma modelagem estrutural com modelos de sintaxe complexa que organizarão os pensamentos e melhorarão a argumentação oral.
Que possamos, portanto, incentivar os pais a praticarem a leitura coletiva com seus filhos, desenvolvendo esse hábito e fazendo a diferença no processo de ensino-aprendizagem, já que a educação se faz mediante a parceria sólida entre escola e família.
[1] https://www.metropoles.com/brasil/familias-do-brasil-leem-4x-menos-para-criancas-do-que-a-media-mundial#goog_rewarded
[2] FROTA, Grazielle Dias; EISENBERG, Zena. A presença de smartphones no lar: tecnoferência entre pais e filhos no Brasil. The presence of smartphones in households: parent-child technoference in Brazil. Revista Cocar, [S. l.], v. 22, n. 40, 2025. Disponível em: https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/7345. Acesso em: 27 ago. 2026.
[3] https://contee.org.br/estudo-revela-que-53-das-familias-raramente-leem-para-crianca/
[4] COSTA-MACIEL, D. A. G. da .; BILRO, F. K. da S.. O Que é Ensinar A Oralidade? Análise De Proposições Didáticas Apresentadas Em Livros Destinados Aos Anos Iniciais Da Educação Básica. Educação em Revista, v. 34, p. e165712, 2018.