A guerra no Iraque chega à escola
As escolas do Iraque transformaram-se em um novo campo de batalha na guerra física e psicológica entre as forças de ocupação encabeçadas pelos Estados Unidos e os grupos de resistência. As novas autoridades tentam fazer com que as escolas funcionem normalmente, apesar das ameaças à segurança, enquanto elaboram planos para erradicar os vestígios do regime de Saddam Hussein dos currículos escolares. Nas duas últimas semanas, cinco escolas de Bagdá foram danificadas por explosões. Embora as escolas não fossem o alvo dos ataques, o fato de terem sido colocadas bombas tão próximas delas indica uma total falta de consideração por sua neutralidade no conflito.
Além disso, nos últimos 15 dias, também foram desativadas meia dúzia de bombas colocadas dentro ou fora de escolas na capital iraquiana, segundo autoridades das forças de ocupação. "Tinha medo. Disseram que a escola ia explodir. Não queria vir", disse Shams Mohammed Alí, uma tímida iraquiana de dez anos, explicando porque faltou à aula no dia primeiro de novembro. Apesar dos riscos, ela gosta da escola e quer continuar assistindo as aulas, disse à IPS no escritório do principal edifício educacional de Bagdá.
A menina não foi a única a faltar na escola nesse dia. Apenas 20 dos 408 alunos dos cursos primário e secundário foram à aula, disse a diretora Yasmine Sobhi Amin. Nos dias anteriores, havia circulado boatos de que grupos de resistência às forças de ocupação atacariam escolas em Bagdá. Três ou quatro escolas receberam ameaças por escrito, segundo o Ministério da Educação. "As demais escolas fecharam por causa de boatos, não por ameaças concretas", afirmou Hassanein Mualla, assessor especial do ministro. A segurança escolar foi colocada no centro da preocupação pública.
Os iraquianos pretendem que as forças de coalizão restaurem a segurança, mas não se entusiasmam com a idéia de verem soldados norte-americanos armados nas portas das escolas. Entretanto, não há policiais suficientes para fazer o trabalho, e isto leva a que as autoridades escolares devem se dirigir às forças de ocupação cada vez que recebem ameaças. Entretanto, os poucos policiais iraquianos existentes ajudam. "Se não fossem os policiais iraquianos, todos os estudantes ficariam em casa. Os pais estão muito preocupados com a segurança", disse a diretora Amin.
Entretanto, a segurança física não é o único problema. As escolas também se transformaram em um campo de batalha pelo futuro político do Iraque. "Durante 35 anos Saddam Hussein (o deposto presidente) lavou os cérebros das crianças", afirmou Hend Rassan, assessor para educação da Autoridade Provisória da Coalizão. "Esse era um de seus métodos para mudar a sociedade. Os livros eram repletos de fotografias e discursos do presidente", acrescentou. Depois de derrubar Saddam Hussein, as autoridades da coalizão invasora também trataram de influir na educação, embora de maneira diferente.
Uma das primeiras decisões da Autoridade Provisória, liderada pelo norte-americano Paul Bremer, foi ordenar uma revisão dos textos escolares. A Autoridade pediu ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e ao Fundo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) que reeditasse os textos sem fotos de Saddam e sem nenhuma referência ao ex-presidente. Mas, um mês depois de iniciado o ano letivo, pelo menos a metade dos alunos ainda não tem os novos livros. Muitos pais tiveram de comprar textos velhos, sobrecarregando o orçamento familiar nestes tempos de incerteza financeira e política. Uma comissão criada pelo Ministério da Educação deve examinar os textos escolares, sobretudo os de história, para determinar que mudanças são necessárias. (IPS/Envolverde).