A Patologia do "Cidadão de Bem"
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Temos passado por momentos turbulentos na sociedade com a ascensão do chamado "cidadão de bem". Em sua pesquisa, Costa (2021) [1] elucida de forma estritamente acadêmica o verdadeiro significado dessa expressão e o impacto negativo que ela exerce sobre a civilidade. O autor inicia sua análise considerando essa figura como uma estratégia discursiva ideológica que expressa uma patologia social da cidadania brasileira, revelando-se, na verdade, um anticidadão e um risco iminente para a democracia.
Em entrevista, o jornalista, repórter e escritor Caco Barcellos[2] pontuou que “a maioria das mortes no Brasil é cometida por cidadãos de bem”. Ele destaca que os homicídios decorrentes de latrocínios correspondem a apenas 3% ou 4% do total. Apesar de ser um percentual proporcionalmente baixo, o índice ainda é prejudicial para o Brasil, pois a repercussão internacional projeta a imagem de um país extremamente violento.
Dando sequência às elucidações de Barcellos, o segundo lugar no ranking de homicídios é ocupado justamente pela instituição que deveria proteger a sociedade, mas que opta por matar: a Polícia Militar, responsável por 30% dessas mortes. Uma das formas utilizadas para justificar tais atos é atribuir a culpa a quem já faleceu, alegando legítima defesa. Barcellos afirma que, em São Paulo, a Polícia Militar chegou a matar 700 pessoas em um único ano, enquanto no Rio de Janeiro esse número atingiu 2 mil indivíduos. O repórter aproveita o cenário para traçar uma analogia com a Polícia de Portugal, que registrou apenas 4 mortes ao longo de um período de 30 anos.
O dado mais alarmante, contudo, repousa sobre os agentes que ocupam o primeiro lugar desse ranking, sendo responsáveis por 66% dos assassinatos no país: o próprio "cidadão de bem". Essa categoria de indivíduos, que não existia na escala atual em tempos passados, adquire armas sob a justificativa de autodefesa contra a criminalidade. No entanto, munido desse armamento, esse sujeito mata a esposa, o filho, o vizinho que possui um posicionamento político divergente, além de indivíduos pertencentes à comunidade LGBTQIAPN+ ou praticantes de religiões de matriz africana — em suma, qualquer um que destoe de seu padrão de normalidade.
Misse e Talone (2024)[3] corroboram essas afirmações ao cruzar a Sociologia da Violência com a Sociologia da Moral. Os autores associam o comportamento do "cidadão de bem" ao "passado colonial e autoritário brasileiro", destacando que a expressão se alicerça no paradoxo da própria ideia de cidadania. De fato, o universo dessas pessoas insere-se em uma visão contraditória, uma vez que propagam o jargão “Deus, Pátria e Família” e defendem o direito à vida, mas agem de maneira diametralmente oposta aos valores que afirmam professar.
Ao analisar a pesquisa de Misse e Talone (2024), constata-se que, enquanto no passado a oposição social se dava prioritariamente contra criminosos e marginais, hoje o maior temor reside na disseminação do desvio de caráter, da hipocrisia, do falso moralismo e de um conservadorismo doentio. Essa intolerância ao diferente e tudo o que há de mais vil em uma sociedade encontram-se representados com veemência na figura desse "cidadão de bem". Esse indivíduo está inserido em nosso meio: no ambiente de trabalho, no núcleo familiar, em instituições religiosas pentecostais e nas corporações que deveriam garantir a segurança pública. O mal está irradiado e só será combatido por meio de uma educação emancipatória, capaz de fornecer conhecimento e discernimento coletivo. Afinal, o verdadeiro cidadão de bem é aquele que se preocupa com o bem-estar comum, pautando-se pela ética e pelo humanismo, virtudes perdidas há muito tempo por aqueles que abandonaram o próprio senso de humanidade.
[1] COSTA, J. F. A.. Quem é o “cidadão de bem”?. Psicologia USP, v. 32, p. e190106, 2021.
[2] https://www.instagram.com/reel/DXg9z3WDjfE/?igsh=MTI4Zmp2YXd0Z3E1MA%3D%3D
[3] MISSE, Michel; TALONE, Vittorio. Cidadãos de bem e sujeitos criminais: a construção de oposições na acumulação social da violência no Rio de Janeiro. Dilemas, Rev. Estud. Conflito Controle Soc. – Rio de Janeiro – Vol. 17 – no 3 – 2024 – e65139