A Pedagogia do Agonismo: Ensinando a Divergir com Respeito e Ética
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A educação desempenha um papel fundamental na formação de educandos capazes de compreender que, na política, devem prevalecer a democracia, a soberania nacional e a justiça social. Todavia, observa-se na atualidade um profundo antagonismo político. Segundo Miguel (2017)[1], o antagonismo se manifesta como uma pulsão selvagem e uma estratégia disruptiva, recorrendo a meios de pressão que, frequentemente, divergem da legalidade. Cabe ressaltar que, sob essa perspectiva antagônica, o outro é visto como um inimigo político a ser eliminado, e não como um mero adversário. Essa dinâmica tem se materializado em manifestações agressivas, como o episódio em que um vereador de extrema-direita vandalizou o vidro de um veículo durante um ato político em Curitiba[2].
Nesse cenário, Mouffe (2005)[3] enfatiza que o antagonismo possui um caráter inerradicável, configurando um modelo que menospreza a especificidade do político — fenômeno que pôde ser constatado, por exemplo, nas hostilidades travadas durante o debate presidencial promovido pela rede de televisão Bandeirantes. Para a autora, enquanto o antagonismo consiste em uma batalha destrutiva entre inimigos, o agonismo reconfigura esse embate: os agentes passam a ser vistos como adversários legítimos, com ideias divergentes ou complementares, mas fundamentadas na reciprocidade e no respeito mútuo. Quando aplicado, o modelo agonístico robustece o processo democrático.
Sob a ótica do agonismo, não há espaço para imposições, inimigos ou soberba; o foco converge para o bem coletivo do povo brasileiro. Espera-se que a classe política debata projetos baseados em dados, fatos e propostas concretas, rejeitando falácias, fake news e discursos levianos. Conforme aponta Mouffe (2005), em um debate público saudável, as paixões ideológicas exaltadas devem ceder espaço aos objetivos democráticos. Esse redirecionamento pressupõe a pluralidade de princípios ideológicos balizados no engajamento democrático (MENDONÇA, 2010)[4]. Complementando essa visão, Miguel (2014) afirma que, na perspectiva agonística, o oponente não é um inimigo a ser destruído, mas um adversário cujas ideias devem ser combatidas no campo argumentativo, assegurando-lhe o pleno direito de defendê-las.
O fulcro do agonismo, portanto, não reside na eliminação do conflito, mas na sua transformação em um canal civilizado, ético e democrático. Refuta-se a lógica da eliminação do "inimigo" e aceita-se a existência de adversários cujas divergências devem ser mediadas pelo debate racional. Assim, quando a escola estimula a superação do pensamento antagônico em favor de uma postura agonística, ela desenvolve nos alunos os princípios filosóficos necessários para fundamentar a criticidade, o respeito, a empatia, a ética, o civismo e a própria democracia.
[1] MIGUEL, L. F. Consenso e conflito na teoria democrática: para além do "agonismo". Lua Nova: Revista de Cultura e Política, n. 92, p. 13–43, maio 2014.
[2] https://www.band.com.br/politica/eleicoes/vereador-e-flagrado-quebrando-vidro-em-ato-pro-flavio-bolsonaro-em-curitiba
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-vereador-bolsonarista-quebra-vidro-de-carro-com-haste-de-bandeira-do-brasil/
[3] MOUFFE, C. Por um modelo agonístico de democracia. Revista de Sociologia e Política, n. 25, p. 11–23, nov. 2005.
[4] MENDONÇA, D. DE . Teorizando o agonismo: crítica a um modelo incompleto. Sociedade e Estado, v. 25, n. 3, p. 479–497, set. 2010.