16/06/2026

A Pedagogia do Ter e a Miséria do Ser: A Velhice Diante do Egoísmo Urbano

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

A educação, compreendida como uma ação transformadora, precisa desenvolver as habilidades socioemocionais resguardadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Entre elas, destacam-se o autoconhecimento e a autogestão, fundamentais para que os indivíduos identifiquem e aprendam a lidar com emoções, pensamentos e valores, desenvolvendo a capacidade de gerir o estresse e manter a resiliência. Outro ponto crucial a ser abordado é a amabilidade, que envolve o exercício da empatia, do respeito, da cooperação e do cuidado com o próximo. Essa dimensão é fortemente complementada pela consciência social, que estimula o educando a considerar o ponto de vista alheio, compreender as normas sociais e valorizar a diversidade, assim como pelas habilidades de relacionamento, focadas na escuta ativa e na resolução pacífica de conflitos.

Evidencia-se que indivíduos com essas habilidades bem desenvolvidas tornam-se pessoas resolvidas, empáticas e orientadas ao bem-estar coletivo. Esse perfil contrapõe-se diametralmente a comportamentos imediatistas, impulsivos e hostis, como os demonstrados por parcela dos moradores do bairro da Lapa, em São Paulo. Em uma manifestação de grave egoísmo social, esses cidadãos buscam, por diversas formas, expulsar as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) da região, alegando que a presença dessas instituições desvaloriza seus imóveis[1].

O que se testemunha nesse cenário é, fundamentalmente, a desumanização dos idosos. Esse processo ocorre quando a sociedade passa a enxergar a população que envelhece como um fardo econômico ou meros objetos de descarte, negando-lhes a autonomia, a dignidade e a própria subjetividade. Entre as justificativas mais despropositadas proferidas pelos moradores, citam-se o suposto barulho gerado pelas instituições e o trôpego incômodo com a circulação de ambulâncias e carros funerários. O fato é que o preconceito escancarado contra o idoso — o etarismo — reflete uma profunda crise ética e uma desumanidade latente por parte desses reclamantes[2].

Tais moradores olvidam-se de que a velhice é uma etapa biológica inevitável para a qual a maioria caminha. Cegos pelo imediatismo, são incapazes de se enxergar no futuro ou de absorver a realidade demográfica: o Brasil registrou uma população idosa de 16,6% (o equivalente a 35,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais), e as projeções do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimam que, em duas décadas, o país abrigará cerca de 55 milhões de idosos.

Os idosos que esses grupos tentam banir possuem historicidades, sentimentos, frustrações, sofrimentos e vivências de abandono, encontrando justamente nas ILPIs o seu último senso de pertencimento comunitário. Eles jamais poderiam ser reduzidos a meras variáveis de especulação imobiliária. São pais, avós e irmãos que, em muitos casos, foram preteridos por perfis humanos semelhantes aos desses moradores da Lapa[3].

Conforme apontam Pollo e Assis (2008)[4], o aumento da demanda por ILPIs é um reflexo direto do aumento da longevidade no país, o que impõe desafios complexos à gestão de políticas públicas, uma vez que tais instituições frequentemente acolhem idosos em situação de vulnerabilidade social, pobreza crônica ou destituídos de suporte familiar.

Como ressaltado em minhas obras, por mais conteúdos teóricos que a educação formal trabalhe ou habilidades técnicas que desenvolva, o caráter individual pouco se altera por forças externas, visto que ele é intrínseco à essência do ser humano. O mau caratismo mostra-se patenteado nesses autoproclamados "cidadãos de bem", indivíduos que priorizam a valorização financeira de um patrimônio de tijolos em detrimento da vida de pessoas que, muitas vezes, abdicaram do próprio bem-estar no passado para oferecer o melhor aos seus descendentes.

 

[1] https://www.instagram.com/p/DYzlVm1leX6/

[2] https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/05/29/fechamento-de-casas-de-repouso-na-lapa-gera-disputa-entre-moradores-e-acusacoes-de-etarismo-velhice-nao-e-crime.ghtml

[3] https://www.instagram.com/reel/DY3IF4UsDSS/?igsh=dWtlaWhscmZ6aGVm

[4] POLLO, S. H. L.; ASSIS, M. DE .. Instituições de longa permanência para idosos - ILPIS: desafios e alternativas no município do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 11, n. 1, p. 29–44, jan. 2008.

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