12/05/2026

A PsyOps na Engenharia da Desinformação

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

As pessoas são influenciadas o tempo todo e uma das técnicas utilizadas com mais efetividade é a PsyOps (abreviação de Psychological Operations, ou Operações Psicológicas). Trata-se de uma técnica cujo intuito é influenciar emoções, comportamentos, percepções e atitudes de indivíduos, grupos e até mesmo nações. Ela é tão eficaz que pode ser utilizada tanto em tempos de guerra quanto de paz, o que é complementado por Neuenfeld (2021, p. 49) [1] ao afirmar que esta técnica se baseia no conhecimento “profundo dos processos de tomada de decisão do público-alvo”, tendo as mídias sociais como um de seus principais meios de propagação.

Para o autor supracitado, um ponto fundamental para a compreensão da PsyOps é a utilização da desinformação — ou seja, a criação de uma informação falsa que substitua o dado embasado em pesquisas e na ciência. Isso ocorre porque o seu cerne reside em operações ofensivas para interromper, negar, degradar ou destruir informações verídicas, visando influenciar as tomadas de decisão, o raciocínio e o comportamento de grupos específicos para, em última instância, desestabilizar instituições nacionais que prezam pela pesquisa científica.

A PsyOps torna-se, assim, a pedra angular da dissonância cognitiva, definida como "um estado de desconforto emocional causado pela percepção de que certos conteúdos mentais – opiniões, comportamentos, crenças – estão em contradição". É interessante pontuar que, independentemente da quantidade ou qualidade das evidências apresentadas contra as convicções, o público-alvo da PsyOps manter-se-á convicto de que tudo o que foi apresentado apenas ratifica o que ele já acreditava; isso porque a técnica trabalha prioritariamente com crenças, e não com evidências científicas[2].

Dito isso, observa-se o quão impactante pode ser a vida do indivíduo que se deixa levar pela PsyOps, uma vez que ela explora a vulnerabilidade cognitiva, moldando o comportamento sem que a pessoa perceba. Essa influência negativa gera desorientação cognitiva, dificultando o discernimento entre fatos e ficções, o que impacta diretamente nas tomadas de decisão. Exemplos recentes ilustram esse cenário, como pessoas “rezando” para pneus ou utilizando celulares na cabeça para sinalizar uma intervenção alienígena.

Outro mecanismo utilizado por esta técnica relaciona-se ao medo e à ansiedade. A PsyOps utiliza gatilhos emocionais negativos para gerar insegurança, mantendo o indivíduo em um estado constante de “luta ou fuga” que prejudica o raciocínio lógico. Um exemplo clássico desse uso é a propagação de boatos alarmistas, como a afirmação de que, caso determinado governo vença a eleição, o cidadão será obrigado a dividir sua casa com estranhos.

Nota-se que esta técnica caminha na contramão da educação, pois provoca a erosão da autonomia. O indivíduo passa a ecoar absurdos como se fossem verdades, transformando-os em fundamentos para opiniões equivocadas e preconceituosas, o que anula o poder de discernimento e a autonomia intelectual.

Além dos problemas expostos, há o revés do isolamento social e da polarização. O indivíduo rompe laços com quem pensa de forma diferente, gerando hostilidade e a desumanização do "outro". Esse processo acarreta, concomitantemente, quadros de paranoia, traumas emocionais e uma desconfiança generalizada em relação às instituições de ciência e pesquisa.

O caos enfrentado pela sociedade torna-se evidente em episódios recentes envolvendo a Anvisa. Mesmo quando a agência busca proteger a população — como no caso da interdição de lotes de detergentes contaminados pela bactéria Pseudomonas aeruginosa[3] —, a medida é interpretada como uma ação política. Adeptos da PsyOps, para questionar a proibição, divulgam vídeos ingerindo ou usando o produto como shampoo, tentando provar que as análises técnicas não devem ser consideradas. A divulgação dessas imagens reforça um comportamento perigoso e configura um crime contra o bem-estar público.

 

[1] NEUENFELD, Matheus Eduardo. Estratégia nacional e Poder Cibernético : O Ressurgimento da Rússia no Cenário Internacional / Matheus Eduardo Neuenfeld ; orientadora, Danielle Jacon Ayres Pinto, 2021. 137 p. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Sócio Econômico, Graduação em Relações Internacionais, Florianópolis, 2021.

[2] http://gestaouniversitaria.com.br/artigos/a-educacao-no-combate-a-dissonancia-cognitiva

[3] um microrganismo oportunista com alta resistência a antibióticos e capaz de causar infecções graves em pessoas com sistema imunológico fragilizado.

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