Agnotologia
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Como citado nos livros Educação e a Não Neutralidade e Educação: Uma Questão de Politizar, ambos publicados pela Ícone Editora em 2024 e 2022, respectivamente, o conhecimento é a mola propulsora da humanidade. Ele traz em si uma incompletude intrínseca, o que já era afirmado por Sócrates em sua célebre máxima: “Só sei que nada sei”. Essa frase explicitava sua humildade intelectual, reconhecendo os limites do próprio saber como o primeiro passo para a busca da verdadeira sabedoria.
O conhecimento pode ser visto como um vasto universo em constante expansão; dessa forma, cada descoberta revela novas dúvidas que instigam mais pesquisas e investigações. Trata-se de um ciclo contínuo que o ser humano é estimulado a trilhar na seara da ciência, aplicando esses achados na saúde, na economia, na tecnologia, no bem-estar e no crescimento ético e moral. Afinal, o conhecimento desprovido de ética gera crises profundas, visto que os lucros passam a ser priorizados em detrimento do valor humano e da própria vida.
O problema da dúvida não está em fomentar a pesquisa ou instigar a ciência, mas sim em fazer com que as pessoas desconfiem do método científico ou criem narrativas paralelas para questionar o saber consolidado — especialmente quando a palavra de um líder religioso, político ou influenciador digital passa a ser vista de forma soberana e inquestionável[1].
É interessante perceber que uma das principais maneiras de refutar a ciência é ridicularizar quem a pratica. Tivemos casos drásticos em que a ciência foi severamente questionada, resultando em mais de 700 mil mortes no Brasil. Estudos epidemiológicos apresentados na CPI da Covid indicam que o número de óbitos poderia ter sido reduzido em até 80%, caso a gestão estivesse alinhada às evidências científicas. A dúvida levantada por esses agentes não estimula o saber; ela simplesmente sabota a veracidade científica para fazer imperar a ignorância, um fenômeno denominado agnotologia, termo cunhado em 2005 pelo historiador Robert Proctor.
Para o historiador, a falta de saber é algo proposital, fabricado por interesses políticos, religiosos e comerciais. Essa lógica remete ao livro O Projeto da Ignorância: Imposição Estrutural Sistêmica e a Imobilidade Social no Brasil, publicado pela Ícone Editora.
Esse tipo de incerteza é fruto de um planejamento estratégico disseminado por meio de falsos debates para omitir fatos claros. Nesse cenário, informações cruciais desaparecem ou tornam-se sigilosas, abrindo espaço para uma pseudociência baseada em estudos fraudulentos, dados forjados ou perspectivas históricas distorcidas por um único viés.
Um exemplo clássico ocorreu com a indústria do tabaco. Quando se comprovou que o cigarro causava câncer, a dúvida foi deliberadamente semeada sob o argumento de que muitos fumavam e não morriam imediatamente. Alegava-se que o tema ainda carecia de comprovação definitiva. Essa hesitação foi suficiente para que a população preferisse desacreditar nos alertas médicos. O falso debate gerado protelou as ações governamentais por quase 40 anos, causando milhões de mortes evitáveis, tudo para evitar perdas financeiras e a necessidade de investimentos massivos por parte das corporações.
O mesmo padrão repete-se hoje com o negacionismo das mudanças climáticas e com os discursos de saúde pública, especialmente por meio de movimentos antivacina[2].
O agnotólogo — o agente produtor da ignorância deliberada — atua como um sabotador do progresso humano. As dúvidas plantadas por ele servem como âncoras que atrasam a legislação protetiva, destroem a credibilidade de instituições essenciais (como universidades públicas e centros de pesquisa) e corroem os pilares do avanço social e democrático. O resultado é a refutação do óbvio e a paralisia da inovação.
Em suma, a evolução da humanidade exige um alinhamento constante com o consenso científico e a transparência de dados, rejeitando debates polemizados, o sigilo injustificado e o excesso de ruído informacional. Que a educação possa instigar a dúvida que constrói o conhecimento, e não a que gera a alienação. Afinal, milhões de pessoas viram a maçã cair da árvore, mas apenas Isaac Newton buscou compreender o porquê.