12/02/2026

Arianismo Tropical e Impunidade: As Raízes Higienistas da Elite Brasileira

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Apesar de o discurso higienista ter tido o seu marco há dois séculos, a sociedade ainda faz uso dele para justificar impropérios com verdadeiras verbalizações chorumentas.

Óbvio que tudo tem o seu contexto; o do discurso higienista se dava mediante a necessidade de intervenções urbanísticas com o intuito de minimizar e até erradicar epidemias que, graças a essas ações, encontram-se hoje erradicadas. O problema é que a elite sequestrou esse discurso para combater e excluir o pobre do centro urbano, alegando que os “cortiços” eram vetores de proliferação de doenças. Por meio de uma segregação prática, fez-se valer o uso da força para um controle social efetivo e excludente.

Assim sendo, o higienismo implicava a modernização e, em concomitância, tornava mister a remoção da população de baixa renda para vilas operárias longe do centro comercial. Isso criou o estigma de que a população pobre, os negros e os imigrantes eram as principais fontes de contágio, fazendo com que o Estado, representado pela elite, não apenas excluísse por meio da segregação, mas buscasse eliminar os “indesejáveis”, como andarilhos, pessoas em situação de rua e até aqueles que praticassem pequenos delitos.

Essas falas são reforçadas por Oliveira Sobrinho (2013)[1], quando esclarece que, para a elite, os pobres eram vistos como “classes perigosas” por oferecerem risco de contágio e problemas para a organização do trabalho e manutenção da ordem pública. Cabe aqui uma análise que ainda reverbera em nosso cotidiano: nas falas de Mansanera e Silva (2000)[2], a eugenia foi um termo criado por Francis Galton (1822-1911) com o intuito de aprimorar as qualidades hereditárias humanas por meio de uma seleção artificial, tal qual se faz com os animais.

Nesse viés, a elite dominante buscava encorajar famílias vistas como “eminentes intelectuais” a se reproduzirem para alcançar a genialidade individual e, em contrapartida, buscava desencorajar o nascimento dos “incapazes” — justamente a população alvo da segregação citada. Um fato histórico pouco observado está na fala de Alves (2007)[3], quando elucida a concepção eugênica e higienista no Rio Grande do Sul. Por ser uma região de grande imigração alemã, oportunizou-se um projeto de “arianismo tropical”, no qual pretos e pobres eram vistos como impuros, havendo a necessidade de “apurar a raça” para o progresso da nação.

Infelizmente, as teorias levantadas aqui ainda ecoam em nossa sociedade, justificando os privilégios da elite brasileira. Vê-se isso, por exemplo, no caso do ex-piloto de 19 anos que matou um adolescente por motivo fútil, após um histórico de agressão a um senhor de 49 anos e de se vangloriar em vídeo por bater em alguém mais velho, além da agressão com taser em uma jovem[4]. Delitos sempre acobertados pela justiça, a ponto de a juíza[5] ordenar sua soltura sob a alegação de que o acusado não evidenciava periculosidade — isso enquanto a vítima ainda se encontrava em coma.

Outra situação explícita foi o caso do “Cão Orelha”, no qual jovens agrediram barbaramente um cão comunitário, enquanto mídia e justiça foram omissas no desenrolar do caso. Assim tem sido a nossa sociedade: o discurso higienista defende o genocídio de cidadãos periféricos e, em contrapartida, mantém a conivência com crimes cometidos pela elite. O fato é que a educação é a única forma de combater pensamentos assim e reverter a amarga realidade de uma sociedade doente, onde políticos defendem a própria blindagem e milionários agem a bel-prazer."

 

[1] OLIVEIRA SOBRINHO, A. S. DE .. São Paulo e a Ideologia Higienista entre os séculos XIX e XX: a utopia da civilidade. Sociologias, v. 15, n. 32, p. 210–235, jan. 2013.

[2] MANSANERA, A. R.; SILVA, L. C. DA .. A influência das idéias higienistas no desenvolvimento da psicologia no Brasil. Psicologia em Estudo, v. 5, n. 1, p. 115–137, mar. 2000.

[3] ALVES, P. C.. A cura da raça: eugenia e higienismo no discurso médico sul-rio-grandense nas primeiras décadas do século XX. Cadernos de Saúde Pública, v. 23, n. 1, p. 242–244, jan. 2007.

[4] https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2026/01/30/piloto-investigado-por-agressao-tem-perfil-sociopata-diz-delegado-pedro-turra-foi-preso-nesta-sexta.ghtml

[5] https://www.metropoles.com/colunas/grande-angular/nao-evidencia-periculosidade-disse-juiza-ao-soltar-piloto-agressor

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