As dificuldades de ensino e de aprendizagem
Quando se discutem as causas do crescente número de crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem, dois posicionamentos fundamentais se delineiam.
O primeiro, por parte dos pais que responsabilizam o sistema educacional, a escola e seus profissionais, que por muitos motivos não atendem a esta demanda, qualitativa ou quantitativamente.
Por outro lado, o sistema educacional, a escola como um todo, insiste que a falta de recursos financeiros, a dificuldade de encontrar profissionais com boa formação e interessados em seu auto-aperfeiçoamento, a desestruturação familiar , o desinteresse e as dificuldades cognitivas e emocionais dos alunos, não lhe permite resolver sozinha os problemas de aprendizagem de alguns alunos.
Assim estamos frente a uma situação complexa, cujos resultados desastrosos são inegáveis para a educação das crianças e jovens. Preferimos analisar a questão a partir de outro enfoque,privilegiando o que a nossa experiência nos mostrou. A princípio, temos que lembrar que os problemas biológicos, de origem genética ou não,determinam muitas das dificuldades do aprender.
Em seguida, pensamos na situação sócio-econômica-cultural das famílias, que podem possuir ou não tais recursos para abordar e tratar dessas questões.Não nos esquecemos ainda de que recursos familiares também são de ordem emocional e de envolvimento com valores e responsabilidades dos pais com seus filhos. E não se trata assim só da possibilidade mas também da disponibilidade de cada família de abrir espaço e dar continência a esse tipo de problemática.Porém nos lembramos que felizmente, não é incomum que pessoas advindas de meios sócio-econômicos desfavoráveis e de famílias pouco envolvidas com questões relacionadas `a aprendizagem, tenham sucesso escolar e profissional, assim como as diferenças entre irmãos também são percebidas com frequência.
Em relação à escola, no mundo todo se ouve falar dos problemas enfrentados pelo sistema educacional público: as questões com a formação do professorado, a precariedade dos investimentos governamentais, etc. Entretanto, muitas iniciativas privadas também têm sofrido críticas, apesar de nos dois ambientes – governamental e privado – existirem sucessos e insucessos.
Porém, quando analisamos individualmente crianças e jovens com problemas de aprendizagem, verificamos que estamos frente a uma mescla enorme de influências, de origem bio-psico-sociais, que não permitem que na prática, se desvincule uma da outra, de tal forma que estão arraigadas , entrelaçadas.
Na nossa vivência profissional, assim como nas pesquisas mais recentes sobre distúrbios de aprendizagem, percebemos que nenhum fator, quer seja o potencial cognitivo da criança, sua motivação para os estudos, as condições familiares e sociais que o cerca, a escola que freqüenta, pode explicar por si só ,o fracasso das crianças e jovens na sua mais importante ocupação que é a escola.
Todos esses fatores influenciam o resultado final. Lembremos que experiências educacionais positivas são fundamentais para reduzir os problemas de aprendizagem de ordem biológica, da mesma forma que novas pesquisas e tratamentos para questões ligadas ao neurológico tem função determinante no tratamento desse tipo de questão e influencia de forma marcante a metodologia a ser usada e a compreensão dos distúrbios de aprendizagem na escola. Comprovadamente estudos sobre a plasticidade cerebral, entendendo-se esta como a capacidade do cérebro em modificar-se em função da experiência, da aprendizagem, têm cedido lugar a uma nova denominação as dificuldades aprendizagem: dificuldades de ensino-aprendizagem.
Hoje é preciso compreender as dificuldades de outro ângulo: a escola não compete somente descobrir e trabalhar as potencialidades de cada aluno, mas de se preparar para otimizar o desenvolvimento dessas qualidades dentro da realidade de cada um.
Assim parece mais apropriado definirmos as dificuldades de aprendizagem não a partir somente das limitações do potencial da criança, das problemáticas familiares ou escolares, mas a partir da interação desses fatores, ou seja, da proporção em que a escola, a família e a sociedade oferecem juntas, o atendimento necessário às suas características individuais ou em resposta a essas dificuldades que aparecem quando as crianças se inserem no sistema educativo.
Cabe portanto repensar a responsabilidade que temos enquanto profissionais ou como família, nessas questões e como podemos e devemos, mudar o foco de nosso olhar da criança para a relação ensino aprendizagem que lhe oferecemos para entender suas dificuldades de aprendizagem. (Maria Irene Maluf – Psicopedagoga Clínica - Vice Presidente da ABPp)