02/06/2005

Bioética prática

Por Carolina Valadares

Em seminário na Reitoria, professores da UnB apresentam linha de pesquisa que discute questões concretas, como a exclusão.

O Brasil quer incluir na pauta da Declaração Universal de Bioética, a ser criada pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em 2005, temas de bioética social e do meio ambiente. O assunto foi debatido pelo professor Volnei Garrafa, da Cátedra da Unesco de Bioética da Universidade de Brasília (UnB), na manhã de terça-feira, 31 de maio, na última edição do Café com Ciência, encontro realizado mensalmente pelo Decanato de Pesquisa e Pós-Graduação (DPP) no auditório da Reitoria. As declarações da Unesco servem como guias para a elaboração de leis em todos os países.

De acordo com Garrafa, os países ricos querem debater assuntos ligados apenas à tecnologia, como a clonagem e o uso de células-tronco, e não têm interesse por questões da bioética de intervenção, uma linha de pesquisa surgida nos países periféricos que analisa temas relacionados à realidade dessas nações. Exemplos de assuntos que chamam a atenção dos cientistas dessa área são racismo, exclusão social, guerras e estudos como os duplo standard (pesquisas dirigidas pelos países de “primeiro mundo” e realizadas em países pobres, onde pessoas doentes recebem placebo em troca de dinheiro).

A Cátedra da Unesco de Bioética da UnB se dedica justamente aos temas passíveis de intervenção. Um exemplo é a pesquisa que será realizada pela aluna de doutorado e funcionária da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Dora Porto. Antropóloga, ela pesquisará o conceito de qualidade no grupo das mulheres negras que ocupam a base da pirâmide social. Na pesquisa, Dora deve avaliar três aspectos: qualidade de vida, de saúde e de atenção. “A partir desses três parâmetros, vou poder mensurar a qualidade das políticas públicas e a forma com que o Estado responde às necessidades sociais”, explica Dora, orientanda de Garrafa.

PRESSÃO DO MERCADO – Durante a exposição, Garrafa também chamou a atenção para a pressão do mercado quando o assunto são células-tronco, estruturas ainda não diferenciadas e que poderiam se transformar em qualquer tecido do corpo. Segundo ele, buscam-se resultados imediatos sem considerar que a pesquisa básica pode levar anos. “Se antes uma pesquisa levava décadas para dar resultados, hoje as descobertas científicas têm logo de ser traduzidas em técnicas de aplicação”, alerta. Volnei Garrafa afirmou que o governo brasileiro tem aprovado pesquisas demais, sem saber os resultados da aplicação dessas células em longo e médio prazo.

A aluna do 4° semestre de Biologia Luciane Rodrigues aprovou a explanação de Garrafa. Recentemente, ela passou a integrar um grupo de pesquisa sobre células-tronco. “A mídia já divulga as células-tronco como uma grande promessa para a medicina, mas precisamos saber de fato o que é importante para nossa realidade”, pondera a estudante.

CONSEQÜÊNCIAS – Também presente à mesa, o epistemólogo Wilton Barroso, do Departamento de Filosofia da UnB, afirmou que a bioética é conseqüência do desenvolvimento científico e tecnológico. “Quanto mais para trás voltamos no tempo, mais vemos que a bioética não existia. A matéria é algo contemporâneo”, afirma o professor.

Teoria complexa e interdisciplinar, sob a definição de Barroso, a bioética mostra que cada vez mais o conhecimento ultra-específico está dando sinais de seus limites. “Talvez estejamos buscando a universalidade novamente”, acredita o pesquisador e colaborador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Bioética (Nepeb) da UnB.

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