BlackFace: Justiça ou Cor de Pele?
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
É importante reconhecer o peso do racismo na sociedade; é um fardo muito pesado que tem maculado a história do povo brasileiro, marcada pela violência, opressão e negligência que reverberam até a atualidade. Um povo que teve a sua cultura subtraída e sua dignidade usurpada.
A vida do negro em nossa sociedade continua sendo marcada pela truculência de pessoas que deveriam resguardar o que consta na própria Constituição: a isonomia. Todavia, essas pessoas são as que excluem e até mesmo ceifam vidas do nosso povo por um critério de cor; ou seja, pessoas afrodescendentes têm seus direitos violados.
Cabe ressaltar que reza a Constituição Brasileira, em seu Art. 5º, que todos “são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Todavia, as pessoas que atuam em nome da Lei diferenciam pele “alva” de pele “alvo”; ou seja, basta ser “preto” para ser confundido com bandido[1].
A situação é tão crítica que uma forma de amenizar a violência contra os afrodescendentes foi por meio da educação, que trabalhará a conscientização pela Lei 10.639/2003, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história e da cultura afro-brasileira e africana. O intuito dessa lei foi resgatar e resguardar a história de um povo sequestrado de sua terra e subjugado pela elite brasileira, como também as lutas e conquistas do Movimento Negro brasileiro, tendo a educação como um mecanismo de transformação e conscientização da sociedade.
Infelizmente o racismo persiste, seja ele estrutural, recreativo ou até mesmo o explicitado nas redes sociais com a certeza da impunidade, já que alguns políticos se demonstram racistas e defensores destes. Assim sendo, uma forma de pontuar o racismo é através do blackface que, segundo Silva, Rocha e Martins[2], elucida-se ser uma “construção discursiva de ideologia racista que era consumida pela população estadunidense”. Para os autores, este movimento teve o seu início nos anos de 1840, e o foco era a caricaturação de atores brancos para interpretar personagens negros.
Os pesquisadores ressaltam que, na época, não faltavam negros para atuarem; contudo, para o povo estadunidense, as belas artes eram direcionadas apenas para a raça considerada superior. Ou seja, os negros não eram considerados nestes eventos e os papéis estigmatizavam a raça: mulheres brancas eram sempre as mocinhas indefesas, tendo os homens brancos como justos e valentes salvadores contra os vilões negros. Nessas peças teatrais, ocorriam a desumanização do negro e a estereotipação pejorativa da raça, sempre inferiorizada e ridicularizada, inclusive em nossa atualidade.
Para os pesquisadores supracitados, embora o blackface tenha sido usado de forma pedagógica, ele é visto como um discurso que apresenta o negro “de forma estereotipada e esvaziada de sua condição de sujeito, mais aproximado ao mundo animalesco do que à sociedade humana”. Hoje, independente de qualquer narrativa, é uma forma de ridicularizar qualquer movimento que busque resguardar o movimento negro. Infelizmente, uma deputada pintou rosto e braços de preto como um protesto imbecilizado, pontuando o quão vil é esta mesma parlamentar e os que pensam como ela.
Para Gorberg[3], “o blackface exerceu papel significativo na perpetuação de imagens e atitudes racistas de modo global” e ajudou a propagar a imagem do afrodescendente associada a noções de “selvageria, licenciosidade, infantilidade e inferioridade em arquétipos negativos definidos pelo blackface”. Que, por meio da educação, possamos combater o racismo de forma que não se tolere qualquer ato que instigue o preconceito, principalmente vindo de pessoas que teriam que fazer valer a ética e, consequentemente, o humanismo, para que a sociedade possa realmente se fazer isonômica, íntegra e humana.
[1] https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/video-mostra-abordagem-da-pm-que-terminou-com-medica-morta-no-rio/
[2] SILVA, A. Q. DA .; ROCHA, F. R. L. DA .; MARTINS, W. C. L.. O Uso do Blackface como Prática Pedagógica nos Anos Iniciais Da Educação Básica. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 61, n. 1, p. 148–162, jan. 2022.
[3] GORBERG, M.. Entre a negrofilia e a negrofobia: caricaturas dos anos 1920 em perspectiva transnacional. Revista Brasileira de História, v. 42, n. 89, p. 61–92, jan. 2022.