BONS PENSAMENTOS, BOAS PALAVRAS E BOAS AÇÕES NA GESTÃO UNIVERSITÁRIA
José Cláudio Rocha[1]
- INTRODUÇÃO
A ideia para a produção desse texto surgiu a partir da repercussão da publicação de um comentário nas redes sociais que falava da importância das filosofias e pensamento ancestral para a gestão pública e privada na atualidade, em especial, da gestão universitária. Acreditamos como o jornalista e escritor Jean-Claude Guillebaud[2] que vivemos um momento em que é preciso definir sobre quais pilares vamos erguer nossa civilização daqui para gente (GUILLEBAUD, 2008) e (GUILLEBAUD, 2003).
De fato, vivemos uma era das incertezas, conflitos armados em diversas partes do planeta, disputas e bloqueis comerciais, competição de nações desenvolvidas pela liderança econômica em termos mundiais, mudança constante do mundo do trabalho em razão do avanço das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) na infraestrutura econômica mundial, com repercussões na superestrutura ideológica, política, social, cultural e educacional (MARX, 1988).
Como economista, acredito que as relações sociais e necessárias de produção na infraestrutura econômica mundial, condicionam as ideologias e doutrinas presentes na superestrutura social, promovendo uma série de mudanças de comportamento, ideias e doutrinas, mas, não podemos deixar de reconhecer a importância de certas ideias universais que formam aquilo que se pode chamar de uma ética universal. Acredito que essa é a melhor definição para ética, isto é, a ética seria formada por ideias aceitas universalmente, enquanto a moral seria restrita mais ao lugar e o momento histórico[3].
Nosso ponto de partida é a filosofia universal: “bons pensamentos, boas palavras e boas ações”, preceito fundamental do Zoroastrismo, uma das religiões monoteísta mais antigas do mundo, originárias da antiga Pérsia, região onde se encontra hoje o Irã. Acreditamos que essas ideias-mestras podem nos ajudar na gestão pública e privada, assim como na gestão universitária, atualmente, reunindo a modernidade do século XXI, com as ideias elaboradas pela humanidade ao longo desses séculos de existência.
Nossa questão de pesquisa é refletir sobre como essas filosofias universais podem nos ajudar a gerir uma instituição de forma ética, democrática com foco na melhoria da condição humana e desenvolvimento sustentável inclusivo e inovativo. São questões extremamente atuais e combinam com a ideia de que o pensamento positivo nos ajuda a gerir melhor nossas organizações econômicas e instituições públicas. Quem conhece o nosso dia a dia sabe que repito sempre essas ideias de uma filosofia universal para a família, amigos, estudantes e, principalmente, estruturam nosso trabalho com gestor público[4].
O objetivo é produzir, preservar e difundir conhecimento, reunindo pessoas e grupos para pensar as grandes questões da humanidade. A justificativa está na importância de socializar esse tipo de discussão, apresentando nossa perspectiva sobre o tema. O método aplicado reúne a análise bibliográfica em livros, artigos científicos, teses e dissertações; análise documental, que envolve também a pesquisa na rede mundial de computadores (internet) e a observação direta com análise do campo em tempo rela, com a finalidade de recolher informações empíricas que possam subsidiar a pesquisa.
Este artigo foi redigido em sede do Centro de Referência em Desenvolvimento e Humanidades (CRDH/UNEB), centro de pesquisa e instituto de tecnologia social, multiusuário e transdisciplinar, reconhecido como estratégico para um desenvolvimento sustentável inclusivo e inovativo no Brasil.
- BONS PENSAMENTOS, BOAS PALAVRAS E BOAS AÇÕES NA GESTÃO UNIVERSITÁRIA
A primeira vez que ouvimos esse preceito universal: “bons pensamentos, boas palavras e boas ações”, foi na obra Bohemian Rhapsody, que retrata a vida de Freedie Mercury e a trajetória da Banda Queen (BOHEMIAN RHAPSODY, 2018). A vida de Farrouk Bulsara, antes de se tornar o ícone Freddie Mercury, foi regida por um mantra silencioso, ecoado na voz calma de seu pai, Bomi, em sua criação zoroastriana, a bússola moral era clara e ancestral: “bons pensamentos, boas palavras e boas ações”. No entanto, o palco é um lugar voraz. Freddie mergulhou na fama, na excitação das multidões e nos excessos que a Nova York dos anos 80 oferecia.
Durante muito tempo, o mantra do pai parecia uma relíquia antiga, distante da agitação de “Bohemian Rhapsody” e das festas inesquecíveis. Freddie viveu com intensidade, muitas vezes escolhendo o caminho da autogestão absoluta em vez da calma daquela doutrina. Mas a vida, com sua ironia poética, muitas vezes nos faz voltar ao ponto de partida. A fama trouxe o mundo aos seus pés, mas também uma solidão profunda e, por fim, a fragilidade física. Talvez tenha sido nesse momento de introspecção que Freddie finalmente compreendeu. O menino que se escondia atrás de óculos escuros e roupas extravagantes precisou do silêncio para ouvir, novamente, a voz de Bomi.
Dizem que, pouco antes do fim, ao olhar para a sua própria história, ele não viu apenas os holofotes, mas a busca genuína por algo puro. A compreensão tardia de que, por trás da persona destemida, a essência do ser humano reside exatamente na simplicidade daquele conselho: bons pensamentos, boas palavras, boas ações. Foi sua última grande performance: aceitar a si mesmo, retornando à essência do amor e respeito que seu pai sempre lhe ensinou, selando sua jornada com a paz que só o entendimento traz.
O preceito fundamental do Zoroatrismo, sintetizado no lema Humata, Hukhta, Hvarshta, estabelece uma ética de responsabilidade individual e social onde o ser humano é visto como um colaborador ativo na manutenção da ordem cósmica. Ter bons pensamentos é o estágio inicial e mais profundo dessa jornada, representando a retidão da consciência e a intenção pura que precede qualquer movimento externo. É no silêncio da mente que se trava a primeira batalha entre o bem e o mal, escolhendo a sabedoria em vez da ignorância e o amor em vez do ódio (BOYCE, 1977).
As boas palavras funcionam como a ponte entre o invisível e o visível, materializando a intenção mental através da comunicação. No Zoroatrismo, a palavra possui um poder criador e deve ser usada para propagar a verdade, o consolo e a harmonia. Falar com integridade significa alinhar o que se sente com o que se diz, evitando a mentira e a discórdia, que são vistas como ferramentas das forças das trevas. Assim, a comunicação torna-se um ato sagrado que edifica as relações humanas e fortalece o tecido social (NIGOSIAN, 1993).
Por fim, as boas ações são a culminação prática dessa tríade, pois o pensamento e a palavra só atingem sua plenitude quando transformados em gestos concretos que beneficiam o próximo e o mundo. Ser ético, para Zaratustra, exige proatividade: não basta não fazer o mal, é preciso gerar o bem por meio do trabalho, da caridade e da proteção à vida. Esse compromisso biopsicossocial transforma o indivíduo em um agente de luz, provando que a verdadeira espiritualidade se manifesta na utilidade e na bondade aplicada ao cotidiano (MANE, 2024).
Integrar a tríade Zoroastrista de bons pensamentos, boas palavras e boas ações na gestão universitária não é um exercício de idealismo, mas uma estratégia de liderança de e sustentabilidade institucional. O gestor contemporâneo deve compreender que a eficiência, eficácia e efetividade administrativa começa na qualidade da intenção (os pensamentos), onde o planejamento deixa de ser apenas preenchimento de planilhas para se tornar um compromisso ético com a melhoria da condição humana e o desenvolvimento sustentável inclusivo e inovativo.
Ao cultivar uma visão biopsicossocial da sua comunidade, o líder antecipa conflitos e desenha soluções que respeitam a complexidade acadêmica, garantindo que cada decisão estratégica esteja ancorada na integridade e no propósito coletivo, e não apenas em metas burocráticas frias. A ideia é colocar o cidadão no centro do processo da gestão.
Na prática cotidiana, essa filosofia se materializa na coerência absoluta entre o discurso e a execução. Utilizar "boas palavras" significa institucionalizar a transparência e a escuta ativa, transformando reuniões de departamento em espaços de construção democrática onde a comunicação não violenta previne o esgotamento mental das equipes.
No entanto, o ciclo só se completa com "boas ações" — a coragem de converter diretrizes éticas em investimentos reais em infraestrutura, apoio estudantil e inovação docente. Gestores que adotam esse preceito universal inspiram por meio do exemplo, criando uma cultura organizacional resiliente onde a ética de Edgar Morin se torna viva, provando que a universidade mais eficiente é aquela que, antes de tudo, é profundamente humana.
- CONSIDERAÇÕES FINAIS
A primeira vez que ouvimos falar no profeta Zaratrustra foi na obra do filosofo alemão Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra (Also sprach Zarathustra), escrito entre 1883 e 1885, versão fictícia do profeta que o filosofo se utilizou para anunciar conceitos centrais de sua filosofia. Encantado com o preceito universal, nossa pesquisa nos levou ao Zoroastrismo, filosofia e religião antiga, mas que ainda tem centena de milhares de seguidores na Índia e em outras partes do mundo.
As referências nos dizem que onde mais se busca esse tipo de conhecimento é na Índia com cerca de trezenos mil participantes (comunidade Parsi), concentrados principalmente em Mumbai e no estado de Gujarat, os Parsis são descendentes de Persas que fugiram da perseguição religiosa há mais de mil anos. Os pais de Freedi Mercury, Bomi e Jer Bulsara, eram Parsis originários de Gujarat, na Índia. Eles faziam parte dessa comunidade de Persas que migraram para a Índia séculos atrás para preservar sua fé zoroastrista. Embora Freddie tenha nascido em Zanzibar (onde seu pai trabalhava para o governo britânico), ele foi criado sob os princípios dessa religião (ANN JONES, 2013).
A gestão universitária, especialmente, de instituições públicas requer propósitos sociais, políticos e culturais, associados a uma cultura de valores e sistemas éticos que balizem as decisões e a política universitária. Frente a tantas pressões do mundo do trabalho por produtividade, alta perfomance e desempenho é preciso buscar o equilíbrio nas tradições construídas pela humanidade. Se na Declaração Universal dos Direitos Humanos encontramos as três grandes tradições ocidentais: liberalismo, socialismo e humanismo, a globalização nos permite hoje olhar para outras partes do mundo recorrendo a ideias milenares que nos ajudam a formar esse sistema ético de proteção a dignidade da pessoa humana.
Acreditamos que a felicidade está no conhecimento, seja no conhecimento do mundo, seja no autoconhecimento. E existem muitas formas de se conhecer o mundo, se a ciência nos dá o método científico, o senso comum, a ideologia, a religião, a política são outras formas de conhecer o mundo, igualmente validades e, de certa forma, complementares. Como educadores e gestores, precisamos desenvolver nas pessoas tanto as competências e habilidades técnicas para o mundo do trabalho, como competências e habilidades sociais e humanas. Freedie Mercury levou um tempo até entender os ensinamentos do seu pai, mas, isso foi fundamental para que encontrasse a paz. Sabemos da importância do equilíbrio, da harmonia na vida das pessoas e, da mesma forma, com o meio ambiente. Bons pensamentos, boas palavras e boas ações é essencial para criarmos um outro mundo possível.
REFERÊNCIAS
ANN JONES, L. Freedie Mercury: a biogrfia definitiva. São Paulo: Best Seller, 2013.
BOHEMIAN RHAPSODY. Direção: Bryan Singer. Produção: Graham King e Jim Beach. Intérpretes: Rami Malek; Lucy Boynton e Gwilym Lee e outros. [S.l.]: 20th Century Fox; GK Films. 2018.
BOYCE, M. Zoroastrians: Their Religious Beliefs and Practices. Manchester - Londres - Reino Unido: University Manchester | ROUTLEDGE & KEGAN PAUL, 1977.
GUILLEBAUD, J. C. A reivenção do mundo um adeus ao século XXI. Editora Betrand Brasil: Rio de Janeiro - RJ, 2003.
GUILLEBAUD, J. C. O princípio da humanidades. São Paulo - SP: Idéias e Letras, 2008.
MANE, H. zoroatrismo - Zarathustra - o profeta da verdade. São Paulo: Holísitico/Ahzuria, 2024.
MARX, K. O capital. I, II, III, IV e V. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
MORIN, E. Ética. 5ª. ed. Porto Alegre - RS: Sulina, 2017.
NIGOSIAN, S. A. The Zoroastrian Faith: Tradition and Modern Research. Londres - Reino Unido: McGill-Queen's University Press, 1993.
ONU/AGENDA2030/0DS. 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. ONU Brasil, 2024. Disponivel em: <https://www.gbcbrasil.org.br/como-as-construcoes-sustentaveis-contribuem-para-os-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-da-onu/?gad_source=1&gclid=CjwKCAjwodC2BhAHEiwAE67hJCsZIlEI1SYIwxv7D02I3CfjmpF8deRuCV4orXGGlN9SwoMufdsfEhoC0rYQAvD_BwE>. Acesso em: 30 Agosto 2024.
UNICEF. Declaração Universal dos Direitos Humanos: Adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948. UNICEF BRASIL, 1948. Disponivel em: <https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos>. Acesso em: 10 Dezembro 2024.
[1] O autor é professor pleno da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) lotado no Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias (DCHT), Campus XIX, Camaçari. Docente na graduação (presencial e EAD) e na pós-graduação lato e stricto-sensu (mestrado e doutorado) é pesquisador e coordenador do Centro de Referência em Desenvolvimento e Humanidades (CRDH/UNEB). Com formação interdisciplinar é bacharel em Ciências Econômicas, com área de estudo em Economia do Bem-Estar Social e Políticas Públicas, bacharel em Direito, com área de pesquisa em Direitos Humanos, Direito Administrativo e da Natureza, e Tecnólogo em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, com área de pesquisa em inteligência artificial entre outras tecnologias. Tem mestrado e doutorado em educação, pós-doutorado em direito e especialização lato sensu em diversas áreas do conhecimento. Contato: rochapopciencia@gmail.com.
[2] Conhecido por seu humanismo e análise crítica da sociedade contemporânea.
[3] Gosto de trabalhar também com o conceito de Edgard Morin para ética como uma perspectiva de um ser humano biopsicossocial. Nesse sentido, ela deixa de ser um conceito abstrato para se tornar uma manifestação de nossa natureza integrada. No aspecto biológico, ela se fundamenta em nosso instinto de preservação, e na empatia neural; no sentido psicológico, reflete a nossa capacidade subjetiva de refletir, escolher e dar sentido a nossas ações, e no social, consolida-se como um sistema de normas e valores que permitem a convivência em grupo. Assim ser ético, não é apenas seguir regras externas, mas agir em harmonia com a complexidade que somos, isto é, seres que precisa de saúde biológica, equilíbrio mental e integração social para florescer plenamente (MORIN, 2017).
[4] Servidor público desde 1992, já ocupamos diversos cargos na administração pública como coordenador de colegiado de curso, diretor de departamento, assessor da reitora, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação, coordenador de inovação e, atualmente, coordenador do CRDH/UNEB. Em todos esses momentos recorremos a essa filosofia universal, aliada a Declaração universal dos Direitos Humanos (UNICEF, 1948) e, atualmente, a Agenda 2030 e os 17 ODS (ONU/AGENDA2030/0DS, 2024).