Brasil: Cresce o desemprego entre diplomados
Brasil: Cresce o desemprego entre diplomados
Por Mario Osava
Rio de Janeiro, 16/03/2004 – Os últimos anos no Brasil desmentem crença de que a educação universitária é suficiente para garantir um bom emprego e futuro tranqüilo. O desemprego entre os que completaram seus estudos universitários aumentou 131% entre 1995 e o início do ano passado, enquanto houve quase que uma estabilidade para os trabalhadores que apenas completaram o ensino primário, cujo índice de desocupação aumentou apenas 6,9%.
Alessandra Faria de Macedo, de 26 anos e formada em fisioterapia há dois anos, é um exemplo. Ela procura emprego fixo enquanto trabalha 12 horas por semana em uma pequena clínica montada por colegas em um bairro da periferia do Rio de Janeiro, recebendo apenas R$ 7,50 para cada sessão de tratamento de conveniados com empresas de seguros de saúde, disse à IPS. De seus 60 colegas de graduação, apenas dois conseguiram emprego estável na profissão para a qual se prepararam. Os demais se desviaram para outras atividades, em geral informais, voltaram a estudar outras carreiras, como administração ou publicidade, ou vivem no subemprego como Alessandra.
Sua esperança é ter novas perspectivas de trabalho com a pós-graduação em acupuntura que está terminando, ou conseguir um emprego público através do concurso promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro para contratar 130 fisioterapeutas dentro de alguns meses. Para isso se prepara em um curso específico, com mais 80 colegas, dos quais 70 estão desempregados. Desde os anos 90, com a economia nacional estancada, os novos empregos gerados no Brasil em sua maioria são para trabalhadores de baixa qualificação, segundo estudo da Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade, da prefeitura de São Paulo, com base em estatísticas oficiais.
Os últimos anos têm sido dramáticos para os trabalhadores empurrados para o mercado informal e salários mais baixos por um mercado formal minguante. Entre 1989 e 2001, o total de desempregados aumentou mais de quatro vezes, de 1,9 milhão para 7,8 milhões, indicam dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, foram extintos milhões de postos de trabalho melhor remunerados. Em 2002, de cada 10 novas ocupações¸apenas três eram do mercado formal. O “desemprego intelectual” é um fenômeno novo no Brasil, já que há algumas décadas a educação universitária era garantia de bom emprego, observou o secretário de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade de São Paulo, Márcio Pochman.
A situação atual obriga a uma grande quantidade de graduados a se empregar em atividades para as quais basta uma qualificação inferior à que possuem, e esse desperdiço de capacidade se verificava nos casos de 425 mil pessoas com curso universitário no ano passado, destacou. Esse quadro nega a tese de que a maior capacitação reduz o desemprego, disse à IPS o professor Anselmo Luís dos Santos, da Universidade de Campinas, onde é pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho. Essa tese dos “liberais” é uma forma de “lançar a culpa do desemprego às suas próprias vítimas”, como antes se atribuía a responsabilidade aos sindicatos e às suas reivindicações pro melhores salários, afirmou.
O elevado desemprego atual, que oscila em torno, dos 12% no índice oficial de desemprego aberto, se deve sobretudo a dois fatores confluentes, a falta de crescimento econ6omico e a proliferação de novos cursos universitários privados desde a década passada, afirmou Santos. De 1992 a 2001, se formaram nas universidades 2,87 milhões de novos profissionais, mas só foram gerados dois milhões de empregos adequados às suas qualificações, explicou. Em geral, os especialistas estimam que a economia brasileira teria de crescer mais de 5% ao ano para absorver os 1,5 milhão de jovens trabalhadores que entram no mercado de trabalho anualmente e são as principais vítimas do desemprego.
A baixa qualidade do ensino superior oferecido por muitas instituições privadas também contribui para que a formação universitária perca força como vantagem profissional, acrescentou Santos. Além disso, grandes empresas, especialmente as industriais, reduziram muito seu número de empregados universitários ao incorporarem novas tecnologias e modelos de gestão que eliminaram funções na cadeia hierárquica, disse o especialista. Por outro lado, em um quadro de paralisação e muito desemprego, as empresas podem aumentar suas exigências de escolaridade na escolha de novos empregados, já que há grande oferta de mão-de-obra qualificada, mas isso pode mudar se houver crescimento econômico, disse Santos. (IPS/Envolverde)