10/08/2005

Capacitação para o uso do vídeo em sala de aula

Formando educomunicadores: professores iniciam capacitação com Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP)

Educomunicadores: você acha essa palavra estranha? Pois acostume-se, professor: é muito possível que nos próximos anos você venha a incorporar esse conceito em sua prática educativa diária. Pelo menos essa é a visão do maior especialista brasileiro nesse tema, o professor Ismar de Oliveira Soares, do Núcleo de Comunicação e Educação da Escola de Comunicações e Artes da USP. Ismar é o coordenador de um amplo projeto de capacitação que está sendo oferecido a 2.400 professores de 1.024 escolas da rede da Secretaria de Estado da Educação.

A capacitação desenvolvida pela equipe do professor Ismar visa atender à necessidade de aumentar a difusão da educação a distância, e faz parte das políticas públicas dos governos estadual e federal. No Estado de São Paulo, já mais adiantado na utilização das novas tecnologias, o programa ganhou um perfil próprio, ampliando os objetivos iniciais proposto pela Secretaria da Educação para as escolas estaduais.

Por isso, a contratação da USP para o desenvolvimento do projeto pelo NCE/ECA, que se realiza via Internet, e também com encontros presenciais, aborda o uso de diversas mídias, priorizando a utilização do vídeo. No entanto, muito mais do que ser um curso operacional, buscará o desenvolvimento do moderno conceito de educomunicação.
Para falar sobre esse conceito, Acesso entrevistou o professor Ismar de Oliveira Soares, que mostra de onde a idéia surgiu e como vê o encontro entre as práticas da comunicação e o fazer do professor.

Acesso: Quando começou a se falar em educomunicação?Quando nasceu esse conceito?

Ismar de Oliveira Soares: Nosso interesse nasceu da constatação de um fenômeno que se tornou mais visível nos anos 90. Havia duas perspectivas que perdiam força. De um lado, a rejeição da escola à mídia, colocada em segundo plano, como prejudicial e dedicada apenas ao entretenimento. De outro, havia, ao mesmo tempo, um deslumbramento com a tecnologia, acompanhado de uma negação, um rechaço. O deslumbramento vinha do discurso dos especialistas e dos vendedores, mas o sistema educativo se mantinha à margem. Professores frustrados com a implantação de projetos que morriam pelo caminho, sem dar atenção à capacitação. Estou apenas demarcando dois campos bem expressos: educação e comunicação.

Acesso: Havia um contexto social mais amplo?
Ismar de Oliveira Soares: Sim, notávamos que em alguns lugares grupos de pessoas conseguiam promover avanços com grande incidência social. Por exemplo, em projetos em defesa do ambiente. Agentes sociais preocupados com o planeta utilizando a comunicação para conseguir o que queriam. Nessa época, muitos temas que tinham grande importância social permaneciam fora da escola, não mobilizavam as pessoas. Publicações científicas também não conseguiam esse efeito de mobilização. Mas centenas de milhares de folhetos, peças de divulgação, notícias conseguiram, em 15 anos, reverter a opinião pública mundial e sensibilizaram governos. Daí resultou a Rio 92. O mesmo vale para o Direito da Mulher, das Crianças. Bem, atribuo o progresso dessas causas à conjungação entre Ciência e Comunicação. Tudo isso transversado pela cidadania.

Acesso: O que isso tem a ver com a educação?
Ismar de Oliveira Soares: Ora, o fenômeno social que acontece aqui refere-se justamente ao campo epistemológico, agora já bem desvendado, que chamo educomunicação. Nada aconteceu por acaso, nem com uma ou duas pessoas. Temos milhares de pessoas cujo perfil passou a ser detectável. Não se partiu da educação para mudar a consciência das pessoas, mas de um movimento social que supriu o que a educação e a Ciência não faziam.

Acesso: Então educomunicação relaciona-se a uma transformação do contexto social, e não à utilização da mídia na escola?
Ismar de Oliveira Soares: Sim. Os anos 80 não foram décadas perdidas. Para o mercado sim, mas em termos sociais foram anos de reformulação da consciência social. Em 87, 88, a ECA fez uma pesquisa em 12 países da América Latina e constatou interesse em utilizar a comunicação com perspectiva de transformação social. Existe um campo de intervenção social que está maduro. Mesmo profissionais de comunicação começam a absorver esse ideal. É o caso da TV Futura, criada por 17 empresas. Veja, se você pensar pelo interesse exclusivamente comercial da mídia, há um contingente populacional que simplesmente não precisaria existir, porque ela dirige-se apenas aos que consomem. Por outro lado, a educação perde ao desconsiderar a mídia. Ela não se aproxima porque não vê como a mídia poderia servir. O pano de fundo de tudo isso é um amplo movimento social. Para que você tenha uma idéia, quando o vídeo chega ao Brasil, já se fazia vídeo comunitário; a Internet chega em 92, e o primeiro provedor foi o do Ibase, do Betinho. Quando a Secretaria da Educação me convida para o projeto A TV na Escola, os desafios de hoje, vimos que estava tudo muito bem feito do ponto de vista da educação. O discurso é o das tecnologias educativas aplicadas ao audiovisual. Mas o nosso interesse é ter oportunidade de dialogar com 2.400 professores a partir da perspectiva da educomunicação. Os educomunicadores não têm preconceitos e empreendem ação pela melhoria da qualidade de vida.

Acesso - Existem diversas maneiras de se trabalhar dentro do conceito de educomunicação?
Ismar de Oliveira Soares: Dentro da comunicação existem diferenciações. Existe o que chamamos de mediação tecnológica em espaços educativos: significa basicamente democratizar as potencialidades da população. Existe uma outra área, que é a expressão comunicativa por meio das artes. O cenário, a música, o ator – a comunicação só faz sucesso quando se tem atores. Cada vez mais, quem trabalha em mídia é o artista. Existe ainda a gestão da comunicação em espaços educativos: sou diretor, vou criar um ecossistema de comunicação em minha escola, democrático, no final todos têm voz.
Acesso - Quem é, então, o educomunicador?
Ismar de Oliveira Soares - O educomunicador é um cidadão holístico. Sem alterar as práticas, educomunicadores conseguem adesão comunicativa. Quando se pesquisa a educomunicação, percebemos que o educomunicador é um cidadão multidisciplinar, que poderá estar na TV, em uma ONG ou em uma escola. Ele aproxima a intencionalidade educativa e a potencialidade de comunicação, tendo em vista a cidadania universal. Isso não acontece no vazio, mas está ligado a projetos. Um deles é o que orienta para o consumo da comunicação. Vamos ter muitas vertentes, mais moralistas, culturalistas ou didáticas, ou seja, quando o usuário se apodera dos recursos para medir forças com os meios. É o caso das rádios comunitárias.

Acesso - O curso trata desses temas?
Ismar de Oliveira Soares: No curso, queremos que os professores se situem como educomunicadores, como agentes, fazendo uso de um recurso específico, o audiovisual. Esse é o ponto de convergência. Nós estamos propondo que reflitam sobre esse movimento mundial de transformação. O professor tem de refletir sobre sua relação de comunicação, que ele estabeleça uma relação mais intensa de comunicação com os seus alunos. Na metade do curso, o professor começa a se preparar para replanejar a comunicação em sua escola. Queremos que ele não se preocupe apenas com o audiovisual, mas que seja capaz de usar a comunicação. Nós perguntamos: como você melhoraria a comunicação em sua escola, e não como você pode mudar a sala de aula.

Acesso - Nos seus contatos com os professores, sente alguma resistência a idéias como essas?
Ismar de Oliveira Soares: Em nossa experiência, temos tido muita oportunidade de informação, mas fragmentadas. Quando chegamos com um proposta, de forma geral os professores mostram-se muito desconfiados. O que vão querer da gente agora? Geralmente, os cursos apelam para o desenvolvimento cognitivo, saber mais, aprender. O nosso pede para exercitarmos habilidades e a reflexão. Inicialmente, então, os docentes encantam-se com o fato de trabalhar com professores da USP. A primeira estranheza é quando são convidados a fazer atividades com os alunos. O professor imediatamente quer dominar o grupo. Mas o aluno já aprendeu que a comunicação tem de ser democrática. É o confronto dialético que aponta para os princípios da comunicação. Entre nossos gurus, temos Paulo Freire, que ensina que professores e alunos precisam juntos produzir o conhecimento, mas antes precisam estar juntos. Por que tudo isso? Nosso objetivo não é fazer uma cidade do conhecimento, mas uma cidade da comunicação.

Acesso - Como a idéia de educação a distância se encontra com o conceito de educomunicação?
Ismar de Oliveira Soares: Educação a distância está relacionada principalmente a uma mediação tecnológica. Aqui é a Internet; o governo federal prevê fax, telefone. O problema é sempre o que se quer. E-learning, e-training não nos absorvem porque não acreditamos que exista uma educação a distância, mas apenas uma mediação tecnológica. A educação é "motivada" a distância. Se o aluno não ler, fizer exercícios, não adiantará nada. Às vezes, aprende apenas a mentir.

Acesso - Todo professor pode ser um educomunicador?

Ismar de Oliveira Soares: Acho mais: a sociedade exige que ele o seja, e só terá sucesso se for um educomunicador. O grande problema é que a universidade demorou muito a descobrir isso, e a escola, tanto pública quanto particular, não teve a ocasião de refletir sobre isso. Vai haver um tempo de transição. O professor não tem má vontade, mas desde que entra na faculdade, encontra uma trilha pronta, e agora tem de renovar suas habilidades. Evidentemente, o educomunicador não vai competir com o professor. O professor é que será um educomunicador. Esta é uma questão que a própria sociedade está colocando. Ou damos uma solução comunicativa ou a educação surgirá sempre como algo isolado na vida da criança, descolado da sua realidade. A finalidade máxima é que isso tudo amplie as possibilidades de conhecimento, e traga perspectivas de futuro.

Acesso - Como é a escola que trabalha com os conceitos de educomunicação?

Ismar de Oliveira Soares: Falamos anteriormente em um ecossistema da escola. Bem, vamos explicar isso. Ecossistema é o conjunto das relações comunicacionais entre os pólos do ambiente educativo. Pode ser vertical, autoritário ou aberto, democrático, participativo. Um ecossistema sempre vai existir. Quando se entra em uma escola, você vai perceber se a diretoria é aberta, se a comunicação flui, se o aluno pode questionar o professor. Nosso ecossistema tem a cidadania como objetivo comum. Se pensamos na escola como um ecossistema democrático e participativo, claro, existiria uma hierarquia – diretores, professores, ordem estabelecida. Mas a escola estaria voltada, de uma forma mais expressiva, para reconhecer a potencialidade comunicativa de cada um. Quem tiver o que dizer tem de ter espaço para isso. A escola tem de ter espaço para que sejam comunicados movimentos culturais, mas, antes de tudo, para aprimorar as relações interpessoais. Imagina-se que uma escola assim tenha biblioteca, laboratórios de informática abertos, estúdio de rádio e de vídeo, e aposta do que diz a LDB – exercitar-se nas várias linguagens do mundo contemporâneo. O capítulo posterior é permitir espaços livres, o que elimina cada vez mais a possibilidade de censura.

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