11/05/2005

Cinejornais difundem nova idéia para identidade nacional

Por Flávia Souza

O ensino de história durante a Era Vargas (1930-1945) caracterizou-se pela difusão de uma nova idéia de identidade nacional: um povo brasileiro forte mas pacífico, unido sob um mesmo governo e norteado pelos valores e qualidades dos bandeirantes paulistas.

Segundo uma pesquisa de mestrado apresentada à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), esse mesmo princípio serviu de base para a criação dos cinejornais, programas informativos produzidos pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) - órgão de publicidade e informação governamental - exibidos nos intervalos de sessões de cinema.

Segundo o jornalista e historiador André Chaves de Melo, autor do estudo, "as primeiras décadas do século XX foram marcadas por uma grande crise do imperialismo europeu e uma tendência mundial de 'redefinição das identidades nacionais'". Esse "espírito" também encontrou seu lugar no Brasil, onde predominou, sob a égide do governo Vargas, a imagem do "bom brasileiro", homem pacífico, trabalhador, forte e cordial. Nesse cenário, negava-se a existência de grandes diferenças regionais e tentava-se impor a idéia de que todos os brasileiros estavam unidos sob a tutela de um mesmo governo.

Melo centrou sua pesquisa na análise das características dos cinejornais e seus pontos de convergência com os currículos da disciplina de História. Dos 433 programas catalogados pela Cinemateca Brasileira, 230 apresentam temas relacionados à "formação de uma nova concepção de identidade nacional", aspecto central das Reformas educacionais Francisco Campos (1931) e Gustavo Capanema (1942).

Os cinejornais podem ser definidos, grosso modo, como "parentes" dos telejornais atuais. Os programas abordavam temas diversos (sobretudo os relativos às realizações do governo), tinham uma duração média de sete minutos e atingiam um público relativamente grande. Em 1944, por exemplo, o número de espectadores em salas de cinema chegou a quase 49 milhões na cidade de São Paulo, cuja população era de aproximadamente 1,3 milhão de habitantes.

Cristalização de idéias
O estudo revela que nos cinejornais são constantes as imagens de festas cívicas, em que o povo aparece unido e "homogêneo". A mestiçagem era disfarçada por técnicas de edição. "Nos cinejornais, o povo brasileiro aparece europeizado. O branqueamento da população era, para alguns grupos de intelectuais que colaboravam com o governo, um dos princípios dessa nova concepção de identidade nacional", aponta Melo. Também era regra a exibição de militares e a ênfase aos heróis nacionais - de um lado, Duque de Caxias, "herói do passado" e símbolo do poder militar; de outro, Getúlio Vargas, "herói do presente" e representante máximo do poder civil.

Melo destaca que um dos objetivos de Vargas era a aproximação do governo federal com o estado mais rico do país, São Paulo, cujas relações haviam sido abaladas a partir da Revolução de 1932. Isso explica, em parte, por que o bandeirante paulista foi tomado como exemplo e modelo de "homem forte". Outro tema constante nos cinejornais e relacionado ao bandeirantismo era a chamada "Marcha para o Oeste". "Representada pelas imagens da construção de Goiânia, o objetivo era promover a colonização do interior do território brasileiro", aponta o pesquisador.

"Nessa época cristalizaram-se estereótipos que estão presentes até hoje, como a idéia de que o paulista é trabalhador", exemplifica Melo. Para a professora Kátia Maria Abud, orientadora do estudo, um dos principais exemplos é a noção, ainda muito difundida, de que Vargas foi um "grande modernizador", a quem se atribui o fim das "coisas condenáveis" presentes na República Velha - como o chamado "voto de cabresto".

Mais informações: (11) 3091-4436 / 9613-1817, com André Chaves de Melo

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