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Ao colocar-me em contato com a Professora Cláudia Ramos Rhoden, do Laboratório de Estresse Oxidativo e Poluição Atmosférica da UFCSPA, o repórter Maurício Macedo, do Jornal do Comércio de Porto Alegre, não imaginava que deste encontro surgiria um projeto inédito no Brasil. Entrevistando a professora para uma matéria sobre poluição do ar e saúde, Maurício descobriu seu interesse em levar para a universidade uma peça teatral infantil que abordasse a temática ambiental e indicou-lhe “O Mundo é Assim...”. Esse trabalho, que escrevi e dirigi juntamente com Vera Potthoff, levou ao teatro Bruno Kiefer 21 mil crianças ao longo de um ano. Não conseguimos viabilizar essa montagem no anfiteatro da UFCSPA. Mas, graças à sensibilidade do atento repórter e com a orientação da professora Cláudia, fiquei encarregado de montar uma proposta contemplando várias atividades, privilegiando também o teatro. Essas atividades, de acordo com a professora, deveriam ser planejadas de forma a beneficiar não somente os alunos da universidade, mas toda a comunidade acadêmica, como professores, funcionários e seus familiares e dezenas de escolas públicas de Porto Alegre.
Conhecendo a Qualidade do Ar Através da Educação Ambiental foi o tema definido para o projeto, o qual recebeu aportes financeiros do MEC, estando inserido como projeto de Extensão Institucional. Como o objetivo foi atender a demanda dos cursos da área da saúde e também proporcionar o intercâmbio com a comunidade, propus à professora atividades que mesclassem informação e arte. Tendo estas definições, as atividades foram divididas em quatro etapas, sendo que em duas delas a população foi convidada a participar.
A primeira etapa, iniciada em março deste ano, compreende a implementação da disciplina de Educação Ambiental (ainda como projeto piloto) à nível de Universidade. Como atividade da disciplina, ainda no mês de maio, os alunos assistiram a quatro palestras, cujos temas foram: A importância de se conhecer a fauna local, Metodologias de Educação Ambiental, Preceitos Ecológicos para uma Educação Ambiental e Arte como Ferramenta Educacional na Sensibilização Ambiental.
A segunda etapa, aberta a visitantes, contou com a Exposição no stress oxidativo, com fotografias sobre a natureza produzidas pela equipe da Câmera Viajante, permanecendo em cartaz de 31 de maio a 18 de junho, no Espaço de Exposições da UFCSPA. Além disso, desde o dia 10 de junho, até o mês de novembro, o anfiteatro Jorge Escobar Pereira Lima recebe duas apresentações mensais da peça teatral “Do outro lado do buraco”, com entrada gratuita para as escolas públicas, e que valoriza a temática ambiental, tão essencial nos dias de hoje, porém sem se deter em discursos ecológicos já desgastados e ineficazes para o público. A professora Cláudia explica que o objetivo é chamar atenção para a problemática do lixo, seus impactos no ambiente e malefícios para a saúde humana, apresentando a destinação correta dos descartes orgânicos e secos.
A 3ª etapa do projeto contemplou 15 alunos das áreas de Ciências da Saúde da UFCSPA. Foram três finais de semana imersos no Rincão Gaia, onde os alunos participaram de três cursos de Educação Ambiental, com aulas teóricas e práticas, somando um total de 60 horas, abordando temas como arte e ecologia, biodiversidade local e Permacultura. Para enriquecer a troca e agregar valor aos cursos, foram convidadas pessoas de variadas idades e diferentes áreas do conhecimento que também pudessem contribuir com os alunos, apresentando realidades distintas.
A bióloga Maria de Fátima Maciel dos Santos, doutoranda em ecologia na UFRGS, foi uma das professoras convidadas que, juntamente com a bióloga Kátia Zanini, ministrou o curso “Educação Ambiental: Aprendendo com a Natureza”. Convidada a relatar sua experiência com o projeto, Maria de Fátima descreve o processo de estudo e preparação para atender a demanda tão específica, dialogando com um público tão diverso: “Só a Educação Ambiental mesmo para nos fazer interagir com pessoas de áreas tão diferentes! Cada encontro para debater, exercitar, trocar experiências e saberes em Educação Ambiental é um desafio. Um desafio de trocas e convergências de percepções acerca da natureza e do momento histórico em que vivemos. Assim, para a realização deste curso também estava com expectativas e ansiedade para que nossas trocas fossem plenas. A satisfação dos participantes é o grande retorno. Para realização deste curso partimos do seguinte: O que é mais importante no momento em que vivemos? O que queremos aprender? Aprender a ver o quadro global que cerca um problema ambiental específico? A história deste quadro, valores envolvidos, percepções, questões econômicas e tecnológicas, e os processos naturais e artificiais que o causam e que também sugerem ações para saná-lo? O homem está constantemente agindo sobre o meio a fim de sanar suas necessidades e desejos. Você já pensou em quantas das nossas ações sobre o ambiente, natural ou construído, afetam a qualidade de vida de várias gerações? E nos diversos projetos arquitetônicos ou urbanísticos que afetam as respostas dos seus usuários e moradores? E não estamos falando de respostas emocionais, que dependem do nosso humor ou predisposição do momento, mas da nossa própria satisfação psicológica com o ambiente. Então, quando conseguimos em coletivo elevar estes questionamentos para ações concretas e replicáveis, estamos realizando um curso de Educação Ambiental. Partimos ainda dos seguintes pressupostos: 1) Os povos nativos e primitivos desenvolveram uma percepção sofisticada dos sistemas naturais e um profundo respeito por eles, passando este conhecimento e respeito de geração em geração. Todos precisavam saber quais frutos serviam para comer, onde encontrar água e mantê-la saudável, como evitar acidentes com animais selvagens, como fazer um bom fogo e um bom remédio. 2) O conhecimento ambiental era necessário para a vida cotidiana. Porém, este tipo de conhecimento ainda é necessário e, para além da sobrevivência humana. A Natureza é fonte de alegria, beleza, identidade, de inspiração para a música, arte, religião, ciência, enfim, valores internos e perenes. 3) O conhecimento ambiental tornou-se necessário para proteger a Natureza e corrigir os erros ecológicos. E este conhecimento é importante em todas as áreas, considerando que todos podemos ser educadores ambientais, cada um na sua esfera de atuação. Finalmente nos deparamos com o cenário perfeito para o Curso: o Rincão Gaia, local que foi agredido pela mão humana com explosões para retirada de pedras e que se tornaria um lixão se não fosse também a mão humana do ambientalista José Lutzenberger dialogando com a Natureza".
Desta forma, vejamos o que diz Alan da Silveira Fleck, 19 anos, estudante do 2º ano de Biomedicina e um dos beneficiados com o projeto: “Após esse tempo decorrido desde o início do projeto e, principalmente, após a participação nos cursos oferecidos, percebo que minha visão acerca da educação ambiental era limitada. Eu não tinha percepção suficiente da interdisciplinaridade envolvida neste tema, tampouco as ferramentas necessárias para ser um educador ambiental. Sobre a questão da interdisciplinaridade, ficou claro que a educação ambiental não é assunto de apenas uma, ou de poucas áreas, mas que há uma gama de profissionais que devem abordar esse tema, como jornalistas, artistas, professores, biomédicos, fisioterapeutas, biólogos, entre outros. Diferente de outras áreas do conhecimento em que o conteúdo é passado de forma objetiva e sem muitas possibilidades de reflexão, percebi que, para tratar da educação ambiental, é necessário não apenas a absorção do conteúdo, mas reflexão sobre questões íntimas, espirituais e que envolvam criatividade e criação. É necessário estar envolvido fisica e mentalmente com o ambiente”, conclui o estudante. A jovem Letícia Mendes Perez Reche, de 18 anos, com o ensino médio concluído e vestibulanda de jornalismo, foi uma das convidadas para o curso. Ligada ao Coletivo Jovem de Educadores Ambientais, Letícia diz que sua participação no projeto foi uma experiência única, pois a integração do grupo foi perfeita, apesar das diferenças de idade e profissões. Segundo ela, o encontro proporcionou valiosas trocas de informações e vivências, acrescentando muito a cada um dos participantes. Como leiga nas questões ambientais, pôde aprender muito e estreitar ainda mais sua ligação com a natureza.
Outro convidado foi Gustavo Guimarães. Carioca de 34 anos e radicado em Porto Alegre desde 2008, é formado em Gestão da Informação e Marketing Estratégico. Atualmente se dedica à Gestão Administrativa, atuando também como Educador Ambiental no Instituto Ronaldinho: “A troca com a UFCSPA foi super interessante, estimulando o debate construtivo e crítico. Conheci pessoas com muita vontade de estar presente na Educação Ambiental e de realizar. O Grupo se deu tão bem que já estamos organizando encontros para debater os assuntos e continuar trocando os saberes. Por intermédio de uma colega do curso, estou participando de outro grupo com a UFRGS, onde todas as últimas sextas do mês estudamos as metodologias educativas. A oportunidade de estar presente com a academia gerou boas trocas e novos amigos educadores. No primeiro módulo trabalhamos a parte mais interna, do eu, a visão holística, o amor, o carinho pelo próximo, o respeito, o gostar de si para depois gostar do todo. Fator essencial para quem quer mudar de comportamento. Começar com este tema foi muito sábio, pois gerou uma busca interna e um novo olhar para o mundo, o que se encaixou muito com a arte, neste caso, o teatro. Estávamos sensibilizados, permitindo que a turma deixasse a veia artística falar mais forte. Foi bom estarmos com artistas profissionais, pois passaram uma ideia real do que acontece no palco.”
A presença de Teresinha Sá, pedagoga, professora do ensino fundamental e uma das maiores autoridades em Educação Ambiental no Estado, também foi registrada. Para ela, a experiência de aprendizagem e troca com o grupo de universitários, sob a batuta de grandes ministrantes foi muito gratificante. Os alunos demonstraram muito envolvimento e interesse. “Tanto a interdisciplinaridade quanto a transdisciplinaridade devem ter como protagonistas o grupo de trabalho, no caso de escolas, os professores. Entendendo que a Educação Ambiental não deve estar em componentes curriculares de uma ou outra área do conhecimento, mas em todas. A forma vai variar de acordo com a compreensão e vivência de cada educador, afinal, mudança de paradigma diz respeito ao nosso próprio ser e estar no mundo”, relatou a pedagoga, dando sua contribuição aos alunos da UFCSPA, que trabalharão a Educação Ambiental com as escolas parceiras da instituição. “Senti muita alegria e entusiasmo nos estudantes e fiquei muito feliz por ter compartilhado valores, vivências e tantas outras emoções, pois acredito que a verdadeira aprendizagem só se dá pelo afeto”, concluiu.
Outro participante do projeto é Lucas Sagrillo Fagundes, de 23 anos. Mestrando em Ciências da Saúde, Lucas realiza pesquisas sobre o efeito tóxico do material particulado (MP) (poluente atmosférico que mais causa problemas à saúde) sobre o sistema nervoso central. Este estudo é realizado in vitro, ou seja, expõe o MP diretamente a diferentes estruturas encefálicas (hipocampo, estriado, cerebelo...) dentro de tubos de ensaio. A função deste estudo é avaliar o dano direto do MP sobre essas estruturas e não o dano indireto (causado pelos pulmões e coração) e mensurar uma dose-resposta do MP sobre as estruturas. Dentro desta temática, Lucas fará dois diferentes ensaios: 1-curva dose-resposta de MP urbano originário da cidade de São Paulo; 2- avaliação da toxicidade do MP de diferentes tipos de biodiesel sobre o cérebro
Lucas afirma que as atividades que fizeram parte do projeto da UFCSPA foram fundamentais para capacitá-los como agentes de promoção de cidadania, indo muito além de meros técnicos de caráter científico, algo que ainda é incipiente na instituição, assim como em muitas outras. Sobre os cursos de Educação Ambiental oportunizados pelo projeto, o estudante é categórico ao afirmar: “Com certeza, me deram bastante bagagem para trabalhar a questão da educação ambiental nas escolas e, principalmente, para a minha própria vida, com novos valores ou renovação de outros”.
Percebemos, então, que esse projeto se consolidou, proporcionando um intercâmbio entre alunos das áreas da saúde, professores, comunidade acadêmica e comunidade externa, favorecendo o aprendizado coletivo e a troca de experiências entre escolas públicas de ensino básico e fundamental e o meio acadêmico. Fica o exemplo de que precisamos apostar mais em iniciativas conjuntas, estabelecendo redes de parceria. E como finalizou Teresinha Sá em uma de suas intervenções: necessitamos criar o novo, ousar, refletir o tempo todo sobre nossas próprias ações e não ter medo de errar. É aí que o humano aparece.
* Christian Lavich Goldschmidt é jornalista, escritor, ator e diretor de teatro. Dedica-se à escrita colaborando com artigos para jornais e sites. Desenvolve projetos de arte-educação através do teatro, além de trabalhar com a produção e coordenação de eventos culturais nas mais diversas áreas.
(Envolverde/O autor) |