Cotistas aumentarão pesquisas sobre DST/Aids
Aumentar o número de pesquisas relacionadas às doenças sexualmente transmissíveis (DST) com recorte racial é um dos objetivos do Programa Integrado de Ações Afirmativas para Negros (Brasil Afroatitude), que oferece bolsas de estudo a alunos cotistas para desenvolvimento de pesquisa sobre DST/Aids e a população negra.
O projeto foi fechado em dez universidades públicas que adotaram o sistema de cotas para negros - Universidade de Brasília, Federal do Paraná, Estadual da Bahia, Estadual de Londrina, Federal de Alagoas, Estadual do Mato Grosso do Sul, Federal da Bahia, Estadual do Rio de Janeiro, Estadual de Minas Gerais, Universidade de São Paulo. Cada instituição vai oferecer 50 bolsas no valor de R$ 241,50 por mês, durante um ano. O valor é o mesmo utilizado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para iniciação científica.
Segundo a consultora de Ações Afirmativas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (Sesu/Mec), Deborah Santos, a intenção é que as pesquisas sejam interdisciplinares. "Queremos que haja uma interação dessas discussões sobre DST/Aids na universidade. A idéia é criar um novo ambiente na universidade, um ambiente sem racismo, sem preconceito, buscando a igualdade", explica.
Os alunos selecionados participarão de 21 projetos de ensino, pesquisa e extensão. Deborah espera que até o dia 15 de abril todos os projetos já tenham começado. "Até lá a gente espera que os projetos estejam caminhando. Essas bolsas são para três modalidades: iniciação cientifica, monitoria e intervenção comunitária. Todos os projetos terão que capacitar esses meninos para serem pesquisadores. Vão receber instrução sobre DST/Aids, questão racial e formas de pesquisa, dependendo do projeto que for fechado."
A Universidade de Brasília (UnB) foi a primeira das dez selecionadas a implementar o programa. De acordo com o coordenador do Afroatitude na UnB, Mário Ângelo Silva, o projeto, além de estimular o aluno, vai mudar um pouco o perfil das universidades. "A cada semestre, depois da política de cotas, tem entrado na UnB aproximadamente 400 alunos negros, um número ainda baixo, mas já superior ao que tínhamos antes", diz.
Mário Ângelo vê no projeto um importante sentido social, ao possibilitar a "inclusão desses segmentos que sempre estiveram excluídos", além de ampliar a temática e os conteúdos na formação dos profissionais. "É importante que a questão racial, o preconceito e as questões étnicas sejam inseridos na formação do estudante, independentemente da área que ele cursar."
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 46% da população brasileira são negros - incluindo pretos e pardos -, mas só 25% deles estão nas universidades. "Mas em que cursos eles estão incluídos?", indaga a consultora do Mec. Segundo ela, a maior parte dos negros está incluída em cursos de licenciatura, pedagogia e assistência social, enquanto nos cursos de medicina, direito, engenharia e arquitetura a presença de estudantes negros é "praticamente nula". "Queremos, com esses projetos, fazer a democratização do acesso do negro em todos os cursos", afirma.
A ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, acredita que a implementação de políticas públicas é uma das formas de combater o racismo. Em nota divulgada pela Seppir, a ministra afirma que as "conquistas devem ser comemoradas, mas é fundamental a ampliação dos debates para estabelecer novas propostas de inclusão social e racial". Para ela, as cotas representam um "primeiro passo necessário" para a população negra, mas a manutenção dos cotistas na universidade até o final do curso é o maior desafio a ser enfrentado.