Crianças com deficiência visual ganham Guia Tátil de ruas da cidade
Uma maquete projetada para que crianças e adolescentes com deficiência visual possam compreender a organização do espaço urbano, de forma a facilitar sua mobilidade pela cidade, é a surpresa de Natal que a Universidade São Marcos entregará aos alunos do Instituto de Cegos Padre Chico, localizado no bairro do Ipiranga, SP, nesta quarta-feira.
O projeto do “Guia Tátil de Ruas do Ipiranga” foi desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Marcos e levou três meses para a elaboração de estudos que viabilizassem a construção da maquete.
“Foi um desafio para nós, arquitetos, pois estamos acostumados a trabalhar sempre com uma linguagem visual”, diz a coordenadora do curso e responsável pela pesquisa, professora Helena Napoleon Degreas. Segundo ela, foi necessária a consultoria do psicólogo Ruberval José Gozzo, professor de Orientação e Mobilidade do Instituto de Cegos Padre Chico, para a construção do Guia. A primeira idéia de um padrão comum de maquete, com edificações e relevos, foi abandonada. “Entendemos que a compreensão que o deficiente visual faz do espaço urbano é um volume, ele ‘vê com os dedos’, portanto sua linguagem é tátil”.
A escolha do material para construir a maquete também envolveu muitos estudos. “Descartamos a madeira, por conter texturas, e o papel, pela pouca durabilidade”, diz o técnico José Angelo Oliveira Pinheiro, do Laboratório de Maquetes. Optou-se pelo poliestireno, que lixado, não apresenta nenhum atrito ou rugosidade, para não atrapalhar a leitura tátil.
Sobre uma base preta foram colocadas as quadras em branco criando contraste necessário para leitura dos deficientes com visão sub-normal. A maquete com dimensão de 2.60m x 1.65m em escala de 1:1000 foi assim executada para poder abranger uma área grande do bairro, sendo a melhor solução encontrada para incorporar o tamanho dos nomes das ruas e de algumas referências, digitados em linguagem braile — cada letra tem seis pontinhos no tamanho específico de 6 mm x 6 mm —, que foram coladas diretamente nas quadras e na superfície preta que forma as ruas.
A maquete engloba o setor do bairro do Ipiranga que vai da Rua dos Patriotas até a Av. Gentil de Moura e da Rua Silva Bueno até a Rua Vergueiro, totalizando cerca de 4 km² ou ainda, somando-se toda a extensão das ruas percorridas, 55 km lineares. Toda esta distância foi percorrida a pé pelo arquiteto André Luiz Canton e pelo técnico do Laboratório de Arquitetura e Urbanismo, Josias de Souza, que registraram todos os pontos de ônibus e as principais referências como delegacias de polícia, hospitais, escolas públicas, universidades, postos de saúde e museus, entre outros. A localização dos pontos de ônibus são sinalizados na maquete com uma pequena reentrância côncava e as entradas dos edifícios com sinalização triangular em relevo (são as únicas “legendas” que os alunos precisarão aprender, pois as demais estão identificadas em braile). Como o braile ocupa um espaço razoável, os nomes das ruas e referências foram escritos em linguagem coloquial. A funcionária da São Marcos, Claudia Vírginia , fez um trabalho voluntário para descobrir como são conhecidos os nomes das ruas, prédios públicos e escolas.
A idéia da criação deste Guia Tátil, segundo a instituição, faz parte da política de responsabilidade social da Universidade, que estimula e possibilita a participação de alunos, professores e funcionários em programas, projetos, campanhas e ações sociais, e oferece orientação para sua inserção em entidades do terceiro setor, no exercício do voluntariado.