19/05/2026

Da Mandíbula Fosfórica à Escala 6x1: O Lucro Capitalista em Detrimento da Vida

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Falar em mais-valia aguça a imbecilidade de muitos, isso porque fazem uma ligação direta deste termo com o comunismo. Todavia, a base do lucro capitalista se dá justamente na apropriação e na precarização do trabalho; isto é, quanto menos direitos o trabalhador tiver e, em concomitância, maior for a jornada trabalhada, maior será o lucro do patrão. Logo, o lucro acontece, muitas vezes, em detrimento da qualidade de vida do trabalhador.

A história tem mostrado que o trabalhador é um recurso substituível com facilidade. Tanto que um episódio que marcou a história de milhares de mulheres ficou conhecido como matchstick girls — as “meninas dos fósforos”. Durante os anos 1800, fábricas de fósforos nos Estados Unidos da América e na Grã-Bretanha exploraram ao máximo a mão de obra de mulheres para um trabalho que parecia simples, mas que trazia em si uma insalubridade que custaria a autoestima, o amor-próprio e até mesmo a vida de dezenas delas.

As atividades executadas por essas mulheres baseavam-se em mergulhar pequenas varetas de madeira em uma substância conhecida como fósforo branco, essencial para fabricar os famosos fósforos que acendiam em qualquer lugar. Todavia, essa atividade, banalizada pelos empresários, trazia reveses graves à saúde das funcionárias, como a doença conhecida como phossy jaw ou “mandíbula fosfórica”.

Por se tratar de um componente tóxico, com o tempo a substância penetrava pela pele, pulmões e boca das funcionárias, comprometendo os ossos da mandíbula. Os sintomas incluíam dores de dente, gengivas inchadas, sangramento e halitose. No seu estágio mais evoluído, os ossos apodreciam, resultando na necrose da mandíbula e fazendo com que pedaços se soltassem sozinhos. Em consequência disso, os rostos das funcionárias contaminadas ficavam deformados e a dor tornava-se insuportável, comprometendo tanto a alimentação quanto o sono reparador. Em casos mais avançados, a infecção passava para o cérebro, causando a morte[1].

Vale lembrar que a única forma de oferecer uma sobrevida para essas mulheres era através de uma cirurgia brutal para remover a mandíbula, realizada sem anestesia adequada e sem garantia de sobrevivência. O que é mais revoltante é que os empresários sabiam das consequências dessas atividades, porém o lucro fazia valer a pena o sacrifício de suas trabalhadoras.

Observe que, para muitos empresários, os lucros valem mais que vidas humanas; as tragédias são vistas em forma de planilhas nas quais o prejuízo causado é ínfimo diante do lucro alcançado. É assim que se dá a mais-valia: quanto mais o funcionário trabalhar pelo mesmo salário, maior será o acúmulo de riquezas para os patrões. Por isso, representantes políticos são contrários ao fim da escala 6x1; eles possuem uma visão equivocada e oportunista, favorecendo o prisma empresarial em detrimento da qualidade de vida do cidadão.

É justamente nesse quesito que a educação agirá, fomentando a busca pelo discernimento, pela consciência de classe e pela consciência política, para que os educandos tenham entendimento e criticidade sobre sua realidade e possam nela atuar como verdadeiros protagonistas cognoscentes. Dessa forma, pode-se observar que a educação altera de maneira dinâmica a mais-valia: ela eleva a qualificação da mão de obra — fazendo com que o funcionário tenha em si um valor agregado por meio do seu capital intelectual —, ao mesmo tempo em que promove a conscientização de seus direitos e deveres.

 

[1] Jornal Fato em Foco. https://www.facebook.com/photo/?fbid=1489438546311231&set=pb.100057352994367.-2207520000

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