Da Senzala à Jornada Exaustiva: A Escala 6x1 e a Herança Escravocrata no Brasil
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A falta de consciência de classe e política dificulta ao cidadão a percepção das nuances de uma sociedade escravista; de um discurso fascista que se permite camuflar sob um falso cristianismo; da desonestidade coberta pelo manto do falso moralismo; e da suposta defesa dos trabalhadores que, contraditoriamente, refuta qualquer diálogo que vislumbre o fim da escala 6x1.
Apesar de não termos mais a escravidão formal e de a economia não ter mais como base a mão de obra escrava, hodiernamente convivemos em uma sociedade na qual muitos ainda trabalham sob um regime análogo à escravidão. Nesse cenário, o empregador oferece o mínimo para que a dignidade do trabalhador não seja usurpada, impondo o medo. Essa dinâmica assemelha-se à triste época em que seres humanos eram escravizados com base simplesmente, na cor da pele.
Sabe-se que os senhores de engenho faziam verdadeiras lavagens cerebrais em seus escravizados, afirmando que, se fossem libertos, seriam caçados, criminalizados ou morreriam de doenças. Estratégia semelhante tem sido utilizada no debate sobre o fim da escola 6x1, por meio da desinformação de que muitas empresas decretarão falência, de que a população ficará desempregada e de que o Brasil enfrentará uma crise social sem precedentes.
O que está em jogo, na verdade, é o lucro exacerbado de empresários que se aproveitam da mão de obra pagando o mínimo exigido pelo sindicato. Caso a proteção sindical seja extinta, o mínimo sequer será assegurado, ou seja, prevalecerá a busca pelo lucro máximo às custas, inclusive, da dignidade e da vida de muitos operários.
Não é preciso ser formado em Economia para perceber que o lucro é a diferença entre o faturamento e os custos operacionais (Lucro = Faturamento − Custos). Quanto maior essa diferença, maior será o ganho do empresário. É por isso que se constrói a falsa narrativa de que os beneficiários do Bolsa Família não querem trabalhar. O fato é que essas pessoas apenas não aceitam ser exploradas. Observe que os comerciantes e empresários que mais utilizam esse discurso são justamente os que pior remuneram seus funcionários.
Todos os parlamentares que votaram contra o fim da escala 6x1 representam a classe empresarial e atuam politicamente para que a proposta não avance. Todavia, são justamente indivíduos que sequer trabalharam sob o regime da CLT, desconhecendo o que significa cumprir uma jornada de 44 horas semanais recebendo apenas um salário mínimo.
Pessoas que replicam essas falácias desconhecem o Efeito Hawthorne. Esse fenômeno comprova que a produtividade aumenta de acordo com a atenção e a valorização oferecidas aos funcionários. O conceito é respaldado pela psicologia positiva aplicada ao trabalho, a qual esclarece que funcionários felizes são mais produtivos, conforme explicado no livro Educação e a Não Neutralidade, publicado pela editora Ícone em 2024.
Dito isso, cabe à educação desenvolver no discente a consciência política, para que ele aprenda a não abrir mão de seus direitos. Afinal, quando um empresário paga pela mais-valia, ele busca despender o mínimo para que seu lucro seja o máximo possível.