09/02/2026

Didática: Fundamentos, sentidos e implicações no Ensino Superior.

Por - Ivan Carlos Zampin: Professor Doutor, Pesquisador, Pedagogo, Graduado em Educação Especial, Docente no Ensino Superior e na Educação Básica, Gestor Escolar, Especialista em Gestão Pública, Especialista em Psicopedagogia Institucional.

 

A discussão sobre didática, especialmente no contexto da formação docente, revela-se indispensável para compreender a complexidade dos processos de ensino e aprendizagem. No bojo do que será analisado, tanto a didática quanto a metodologia constituem dimensões essenciais, indissociáveis e determinantes para a prática pedagógica eficaz. Para compreender sua função contemporânea, torna-se necessário revisitar sua origem e evolução, situando o conceito em seus fundamentos históricos, filosóficos e pedagógicos. O termo “didática” deriva do grego didaktiké, que significa literalmente a arte ou técnica de ensinar. Essa origem etimológica já indica que, desde seus primórdios, o campo se relaciona com a ação prática de orientar o aprender.

Jan Amos Comenius (1592–1670), considerado o pai da Didática Moderna, foi o primeiro a sistematizar formalmente os princípios do ensino no monumental tratado Didactica Magna (1657), obra na qual defende que ensinar deve ser um processo organizado, metódico e acessível a todos. Comenius já apontava que o ensino deveria partir da experiência cotidiana, respeitar o desenvolvimento humano e abranger todas as ciências e artes, afirmando que “ensinar tudo a todos” constituía uma arte que exige planejamento, estrutura e intencionalidade. Sua contribuição principal foi propor, pela primeira vez, a sistematização do processo ensino-aprendizagem, rompendo com a perspectiva espontaneísta e desorganizada da educação tradicional.

Desde Comenius, a didática tem sido compreendida sob diferentes enfoques. No dicionário Houaiss (2001), a didática é definida como a área da pedagogia responsável por organizar preceitos científicos que orientam a atividade educativa. Essa definição reafirma sua natureza técnica e, ao mesmo tempo, científica, pois envolve o estudo sistemático de métodos, estratégias, recursos e condições que tornam o ato educativo mais eficiente. Para Masetto (2003, p. 32), a didática corresponde ao “estudo do processo de ensino-aprendizagem em sala de aula e de seus resultados”, enfatizando a relação entre planejamento, mediação docente e aprendizagem efetiva. Já Libâneo (1994, p. 58) destaca que sua origem se dá quando “os adultos começam a intervir na atividade de aprendizagem das crianças e jovens através da direção deliberada e planejada do ensino”, expressando o caráter intencional que distingue a prática pedagógica da espontaneidade do senso comum.

Uma conceituação mais ampla é apresentada por Candau (1988), que compreende a didática como multidimensional, reunindo dimensões humana, técnica e político-social. Dessa forma, ela não pode ser concebida apenas como um conjunto de técnicas, mas deve ser entendida como prática social, situada historicamente e atravessada por relações de poder, cultura e subjetividade. O debate teórico contemporâneo, portanto, afirma que a didática supera os limites da técnica, englobando princípios éticos, epistemológicos e socioculturais.

Ao compreender esses fundamentos, torna-se possível perceber que a didática é indispensável no cenário da Educação Superior, ainda que historicamente tenha sido negligenciada nesse campo. Durante décadas, predominou nas universidades brasileiras a ideia de que para ser professor bastava dominar o conteúdo específico da disciplina e possuir boa comunicação. Como afirma Gil (2008), o domínio de metodologias próprias do ensino superior não era considerado requisito relevante para a contratação de docentes. A crença generalizada era de que, por se tratar de um público adulto, os estudantes seriam naturalmente autônomos, prescindindo de estratégias de ensino adequadas, sendo suficiente a exposição oral tradicional.

Contudo, essa perspectiva reducionista ignora que adultos também aprendem de maneiras distintas, possuem ritmos heterogêneos, experiências formativas diversas e necessidades específicas. A Andragogia, campo que estuda a educação de adultos, ressalta que o ensino voltado a esse público exige metodologias próprias, participativas, contextualizadas e que dialoguem com a experiência prévia do aluno. Assim, reduzir a docência universitária ao ato de transmitir conhecimento revela-se inadequado e pedagogicamente frágil.

Essa visão equivocada sobre o papel da didática no ensino superior ainda encontra respaldo legal na Lei de Diretrizes e Bases (LDB 9.394/1996). O Artigo 66 estabelece que a formação do professor universitário deve ocorrer prioritariamente em cursos de mestrado e doutorado, remetendo a uma concepção que privilegia a formação científica e ignora a formação pedagógica propriamente dita. Embora a pós-graduação lato sensu ou stricto sensu contribua para o aprofundamento teórico e técnico em áreas específicas, ela não garante conhecimento sobre metodologias, avaliação, planejamento didático ou gestão da aprendizagem, ou seja, competências essenciais para a docência.

Como sinaliza Libâneo (2013), a formação pedagógica no ensino superior precisa articular conhecimentos científicos, saberes didáticos e atitude investigativa, para que o docente possa compreender criticamente o processo de ensinar. Assim, não basta dominar conteúdos; é necessário saber ensiná-los. A docência exige planejamento, mediação, avaliação formativa, uso de tecnologias, compreensão da diversidade e postura reflexiva. Neste sentido, a didática se torna elemento estruturante da prática docente na universidade. Ela permite ao professor compreender como o conhecimento pode ser transformado em aprendizagem significativa, como defende Ausubel (2003), e fornece fundamentos para que o ensino seja inclusivo, motivador e articulado às demandas contemporâneas. Em um mundo marcado pela complexidade, pelas rápidas transformações tecnológicas e pela diversidade de perfis estudantis, o ensino baseado apenas na exposição oral e na repetição de conteúdos não atende mais às necessidades formativas dos estudantes.

Como resultado, a didática no ensino superior precisa reconhecer o estudante como sujeito ativo, capaz de construir conhecimentos, refletir criticamente e participar de forma autônoma do processo educativo. Isso implica práticas pedagógicas interativas, como metodologias ativas, projetos integradores, aprendizagem baseada em problemas e outras estratégias que ampliam o protagonismo estudantil. A formação docente, portanto, deve abranger não apenas o domínio do conteúdo, mas também o conhecimento sobre processos cognitivos, uso adequado de recursos, ética profissional, avaliação e organização curricular. Em síntese, a didática constitui-se como um campo teórico-prático fundamental para compreender e transformar o ensino. Sua presença na formação de professores universitários não é opcional, mas necessária para que a educação superior cumpra seu papel social, científico e humanizador. Ao reconhecer sua importância, instituições e educadores fortalecem a qualidade do ensino e promovem práticas coerentes com as exigências da sociedade contemporânea.

Referências Bibliográficas

AUSUBEL, D. P. Aquisição e retenção de conhecimentos. Lisboa: Plátano, 2003.

CANDAU, V. M. A Didática em questão. Petrópolis: Vozes, 1988.

COMENIUS, J. A. Didática Magna. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

GIL, A. C. Didática do ensino superior. São Paulo: Atlas, 2008.

HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LIBÂNEO, J. C. Didática. São Paulo: Cortez, 1994.

LIBÂNEO, J. C. O processo de ensino: conceito e fundamentos. São Paulo: Cortez, 2013.

MASETTO, M. T. Competência pedagógica do professor universitário. São Paulo: Summus, 2003.

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