08/10/2026

Do Inferno dos Retirantes ao Paraíso da Faria Lima

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Confesso que não sou muito afoito às artes, embora algumas me fascinem pela retratação da realidade, visto que o tempo é uma tênue variável capaz de representar um passado longínquo que reverbera no presente e, talvez, se projeta no futuro, como demonstrado no texto “Mordedores de Pilar: Quando a Fé é Instrumentalizada pela Política”, publicado por esta renomada revista[1].

O Brasil é um país continental e, justamente por sua dimensão, abriga extremos: enquanto há cheias em certas regiões, ocorrem secas em outras. No passado, a estiagem ocasionava o êxodo rural, já que, para fugirem da miséria, muitos nordestinos largavam suas terras e migravam para outras regiões, enriquecendo-as com seus trabalhos e culturas — uma força de trabalho que, muitas vezes, foi subvalorizada.

A disciplina de Arte no Ensino Fundamental passou a ser obrigatória e integra quatro linguagens artísticas: Artes Visuais, Dança, Música e Teatro. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), esse componente curricular tem o objetivo de promover o desenvolvimento cognitivo, social, cultural e emocional dos estudantes do 1º ao 9º ano.

Contudo, já me vi questionando várias vezes a metodologia utilizada nessa disciplina. Por meio de projetos estéreis impostos pelas secretarias municipais de educação, a famosa “releitura” tornou-se, a meu ver, uma forma de ensinar o plágio ao aluno; isto é, orienta-se a copiar a arte de outrem, sem a necessidade de se criar um estilo próprio.

Ao analisarmos a verdadeira função da educação, veremos que um dos seus pilares está na transformação do ser por meio do conhecimento, da criticidade, do protagonismo cognoscente e do discernimento — valores que vêm perdendo relevância. Isso pode ser comprovado no resultado das urnas: o Datafolha projetou que 32% dos jovens votaram contra os próprios direitos, lembrando que a maioria deles fará o Enem em novembro para tentar uma vaga em uma universidade pública. Observa-se o contrassenso nisso: um estudante votando em um candidato que se posiciona contra a universidade pública e que tem como objetivo acabar com todo tipo de investimento social, como o Pé-de-Meia, o Fies e o Prouni, além dos cortes em pesquisa e bolsas da CAPES. Essa postura implicará o sucateamento das Instituições de Ensino Superior (IES) e, concomitantemente, a queda no nível e na qualidade do ensino.

Isso equivale a reafirmar que o filho do pobre não tem o direito de estudar. Ele seria obrigado a seguir o legado de privações de seus pais, restando-lhe apenas os subempregos e os baixos salários.

É aí que reside a importância da arte para instigar o discernimento do aluno, algo visível na pintura icônica que representa a miséria e uma criança morta nos braços de uma mãe[2], pintada em 1944 pelo célebre artista brasileiro Candido Portinari. Sobre ela, o pintor declarou: “Fiz nesta composição a minha mais verdadeira Piedade. Pintei uma mãe desesperada, curvada à dor, em sua marcha indescritível de retirante, trazendo no colo o filhinho prematuramente vítima pela fome” (PORTINARI, 1944) [3].

A arte pode ser vista como algo revolucionário. É por isso que os extremistas atacam a cultura. No passado, soldados nazistas destruíram livros e obras de arte porque sabiam que elas instigam o pensamento, o olhar crítico e a contextualização da realidade.

Em diálogo de Rodrigues (1994)[4] com um dos sociólogos de maior representatividade em nosso país, Herbert de Souza, o Betinho, foi elucidado que a fome é exclusão: “exclusão da terra, da renda, do emprego, do salário, da educação, da economia, da vida cotidiana”. Para o sociólogo, quando uma pessoa chega ao ponto de não ter o que comer, é porque tudo o mais já lhe foi negado, configurando um cerceamento moderno ou até mesmo um exílio. A fome é um desastre social e o atestado da miséria absoluta; e a obra de Candido Portinari representa essa completa exclusão.

A produção do artista possui uma representatividade crucial para que o estudante reconheça a memória histórica do Brasil, já que a tela ilustra o destino trágico de tantas famílias que realizaram o êxodo rural. O objetivo final daquela marcha era a chegada à região Sudeste, especialmente às indústrias e lavouras de São Paulo, onde muitos se viram obrigados a aceitar a exploração para não retornarem à miséria absoluta — submetendo-se a trabalhos árduos, por vezes análogos à escravidão.

Infelizmente, esses retirantes sofreram e venderam sua força de trabalho em troca de subsistência. Essa realidade converge perfeitamente com o livro de Victor Hugo, intitulado O Homem que Ri (L'Homme qui rit), romance filosófico e dramático publicado em 1869 e escrito durante seu exílio. Na obra, uma frase ficou imortalizada: “É do inferno dos pobres que é feito o paraíso dos ricos”. Milhares de retirantes enriqueceram a cidade de São Paulo, que se tornou o paraíso econômico da elite. A própria Avenida Faria Lima é fruto direto da mão de obra nordestina. Foi com o suor e a força desses trabalhadores, hoje frequentemente desprezados, que se ergueu o símbolo máximo da riqueza e do mercado financeiro nacional; e são esses mesmos cidadãos que hoje sustentam os serviços de base que fazem o coração do PIB pulsar.

Percebe-se, portanto, que uma simples aula de arte, ministrada por um docente bem formado, é capaz de despertar a verdadeira consciência e o discernimento em seu discente, garantindo que a análise dessa arte não seja uma mera releitura passiva, mas uma ferramenta para impedir que os tempos sombrios do passado se tornem os tempos que estão por vir.[5]

 

[1]http://www.gestaouniversitaria.com.br/artigos/mordedores-de-pilar-quando-a-fe-e-instrumentalizada-pela-politica

[2] https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/83877-crianca-morta

[3] PORTINARI, Candido. Criança Morta. 1944. Depoimento e registro do artista sobre a obra. Projeto Portinari. Disponível em: <https://www.portinari.org.br/>. Acesso em: 8 out. 2026.

[4] RODRIGUES, Carla: Ética e Cidadania. São Paulo, Moderna, 1994 (Herbert de Souza)

[5] Para aquisição de exemplares, palestras ou contatos institucionais, por favor, envie uma mensagem diretamente para o e-mail wolmertavares@gmail.com ou acesse os canais de atendimento das redes sociais: Facebook (wolmerricardo.tavares) ou Instagram (@wolmertavares).

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