30/08/2005

Docentes e a interdisciplinaridade

Por Lilian Burgardt

Embora o discurso da interdisciplinaridade seja pregado entre as mais diferentes áreas da educação com objetivo de fazer com que os futuros profissionais obtenham melhores resultados em sala de aula, não são raros os casos em que este novo método é alvo de rejeição e preconceito. Em parte, porque alguns professores, os mais radicais, preferem manter-se fechados em seu universo e, também, porque trabalho em equipe ainda é um monstro que assusta muita gente.

No entanto, há aqueles mestres mais ousados que apostam em novos métodos para "ver em que bicho vai dar". E, em cima de erros e acertos, acabam construindo novos caminhos, muitas vezes, bem-sucedidos. Neste contexto, a integração curricular, processo de aprendizagem que prevê a aproximação do trabalho dos docentes de diferentes disciplinas, vem ganhando espaço nas universidades e, ainda que lentamente, conquistando professores.

Segundo a educadora Léa das Graças Camargos Anastasiou, professora aposentada da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e consultora de revisões curriculares, este processo iniciou na década de 90 com a ABEM (Associação Brasileira do Ensino Médico) pela necessidade de formar médicos com visão mais generalista e mais integrados nas relações do trabalho. Comportamento que, na época, apesar de não ser incentivado na formação, hoje transfigurou-se em uma tendência. "Há um movimento para que os currículos universitários sejam voltados para uma visão mais integrativa da profissão", revela.

Tempo de adaptação

Porém, por mais bem intencionada que seja a novidade, assim como em todo processo de mudança, é necessário um período de adaptação, tanto por parte dos alunos como, essencialmente, dos docentes. Isto porque os mestres de hoje em dia foram formados sob o antigo sistema. Sendo assim, desenvolver profissionais sob uma nova visão torna-se um desafio e tanto. Segundo a educadora, para se encaixar neste novo modelo, é importante que os professores compreendam que seu aprendizado também tem valor, não deve ser jogado fora, mas sim superado. "A partir desta visão e não de uma negação ou simples exclusão de seu passado acadêmico é que os mestrem podem encontrar uma nova saída para o processo de ensino", destaca Léa.

Claro que pensar desta forma não é fácil, especialmente quando há uma cobrança por parte da instituição de ensino, ou mesmo dos alunos, que inseridos neste novo processo, também precisam de apoio e, ao mesmo tempo, cobram resultados dos professores. "Não é fácil se adaptar. As dificuldades são grandes e inúmeras, desde a formatação da aula até uma interação com os outros professores", conta a professora do Departamento de Odontologia da UEM (Universidade Estadual de Maringá), universidade que apostou na criação do curso de Odontologia substituindo a grade pela matriz integrativa, Mirian Hidalgo. (Leia no box ao lado o que significa matriz integrativa)

No entanto, para ela, a criação do curso de acordo com este processo é um avanço significativo na construção de profissionais com um novo perfil e, também, para a qualificação dos docentes. "Ao mesmo tempo que os alunos são inseridos em uma nova realidade, os professores também se adaptam, inovam, trocam experiências e se relacionam mais diretamente com outros mestres. Isto gera uma contribuição importante para nossa profissão", diz.

Segundo Mirian, este comportamento deve ser incentivado cada vez mais. "Antes da implementação do curso na UEM tive de assistir algumas aulas como de Farmácia e Bioquímica que tratavam de Imunologia pois faziam parte do mesmo módulo de ensino em que eu estava inserida com a disciplina de Patologia Pulpar", lembra. "Foi uma experiência muito rica", conta.

Embora com pouca experiência como docente segundo o modelo clássico de ensino, a também professora do departamento de Odontologia da UEM, Raquel Terada, declara ter sentido uma grande diferença no processo de ensino/aprendizagem através da matriz integrativa. "Já iniciei minha carreira neste novo modelo, já que lecionei apenas um ano com a grade curricular. Certamente é algo que só enriquece a carreira dos docentes e aprimora o aprendizado dos alunos", diz.

O curso de Medicina da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) também adotou a matriz integrativa e, além disso, resolveu modificar sua proposta pedagógica, passando para um modelo construtivista de aprendizagem concentrado no aluno através de módulos temáticos. Traduzindo para o bom e velho português, isso significa que desapareceram as disciplinas tradicionais que existem no ciclo básico e ciclo clínico dos cursos de Medicina e estas áreas passaram a ser executadas de forma integrada. No entanto, as queixas e dificuldades por parte dos alunos e dos docentes também foram fatores inerentes à mudança. "A adaptação dos docentes certamente foi difícil", revela Maurício Pereima, coordenador do curso de Medicina da instituição.

Para driblar as dificuldades, foi necessária uma capacitação. "Oferecemos cursos e oficinas visando a incorporação de novas metodologias", diz Pereima. Além disso, a universidade também investiu na contratação de uma assessoria pedagógica para dar impulso à mudança através de novas propostas de aprendizagem. "Ensino em pequenos grupos, problematização de casos, seminários e palestras e a avaliação dentro da visão da integralidade foram tópicos abordados", conta.

É importante ressaltar que trabalhar segundo os preceitos da matriz integrativa não é uma tarefa fácil quando ela simplesmente cai de pára-quedas no colo dos professores. É necessário que as instituições de ensino dêem apoio aos mestres para que seja possível atingir as metas e apresentar bons resultados. "A parceria com a universidade é determinante para o sucesso desta nova empreitada. Não basta contratar o docente e exigir dele este perfil sem que se ofereçam mecanismos para que ele se adapte a esta nova linha de aprendizagem", declara.

A matriz integrativa está mudando antigos paradigmas da educação do ensino superior no Brasil. Porém, embora este modelo signifique mais trabalho para os docentes, já que exige mais envolvimento com os conteúdos, não só de sua área, mas do módulo em que está inserido, trata-se, na opinião de especialistas, do caminho mais curto para o futuro da educação. "A qualidade da formação não se dá mais pela soma das partes, mas por sua integração. Isso gera uma diferença significativa na qualidade das relações, dos nexos e das apreensões do aluno. Deve-se, portanto, investir e apostar nessa idéia", finaliza Léa.

Mas o que é matriz integrativa?

Nada mais que a substituição do antigo processo em que o professor apenas explica sua matéria e avalia os conhecimentos dos alunos em cada disciplina, por um sistema em que as mesmas se entrelaçam e se complementam. "No caso da Medicina, por exemplo, os blocos das aulas de Anatomia que eram vistas todas no primeiro e no segundo ano do curso fazem parte agora de uma área de estudos", explica Léa.

Isso significa que os alunos que vão estudar os aspectos morfofuncionais, por exemplo, trabalham em um cadáver já dissecado e à medida que vão avançando nas aulas, como o estudo das paredes do aparelho gastrointestinal, voltam para o laboratório de Anatomia, fazem a dissecção do abdômem e vêem as vísceras com mais profundidade. Outro exemplo, é que quando evoluem para o sistema cardiovascular, eles retornam ao laboratório de Anatomia e dissecam o segmento superior do tórax, identificando as estruturas anatômicas e algumas doenças relacionadas a elas. Neste momento a novidade é que há a participação de professores da área de Radiologia e Diagnóstico por Imagem mostrando o que pode ser identificado através de exames como tomografia, raio-x e ressonância magnética.

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