Educação como Instrumento de Ruptura do Pânico Moral
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
É sabido que a verdadeira educação nunca é neutra, visto que cabe a ela o papel de fazer o aluno pensar. Um aluno crítico não é conivente com um sistema corruptor e permissivo com a desigualdade social, representado pela produção de miseráveis intelectuais que movimentam as engrenagens de nossa política vil. Uma das formas de efetivar essa produção de miséria intelectual é por meio da "moral de rebanho", tema muito questionado por Nietzsche em seus livros Além do Bem e do Mal e A Genealogia da Moral. As pessoas tendem a aceitar o que é imposto pelo sistema, seja por medo ou comodismo, tendo como braço forte a religião, que serve para enfraquecer a força natural do ser humano e a sua capacidade de pensar.
Foi constatado pelo filósofo que o medo coletivo, a histeria e o ressentimento criam ondas de culpa e julgamento. Isso faz com que todos pensem de forma convergente com o que favorece o sistema. Esta moral de rebanho é instigada pelo pânico moral, uma estratégia usada por extremistas para gerar o medo exacerbado e coletivo do enfraquecimento de certas tradições ou do bem-estar da sociedade — um bem-estar, na verdade, imposto pelo próprio sistema.
É fato que extremistas fazem uso do pânico moral e, com isso, obtêm o apoio de líderes religiosos pentecostais. Por meio da manipulação do medo, estes proferem absurdos, como a divisão entre um partido que defende o bem e outro que defende o mal, como se a política fosse uma cisão entre Deus e o Demônio. Esquecem-se de que, na realidade, o que existe são posições políticas e, muitas vezes, oportunistas, com políticos defendendo pautas das quais outrora eram contra.
Cientes desse poder de manipulação, os políticos criam estratégias para gerar o pânico moral por meio de ameaças reais ou falsas. Para isso, contam com o apoio de uma mídia conivente e tendenciosa, que faz com que a falsa informação seja repetida exaustivamente em jornais, televisões e redes sociais, visando crescer o medo exponencialmente. Para que funcione, é preciso eleger um inimigo: um culpado que supostamente destruirá a moral e os bons costumes. Este perigo inventado faz com que os manipuladores se apresentem como salvadores; cria-se o veneno para vender o antídoto. Naturalmente, essa não é uma ação solitária. Esses manipuladores não medem esforços para conseguir o que desejam, afinal, para eles, os fins justificam os meios. Assim, usam crianças indefesas, tiram falas de contexto, desviam o foco dos verdadeiros problemas e fomentam o preconceito. O preconceito, por ser uma ação excludente, faz com que indivíduos que buscam o sentimento de pertencimento pensem e vivam de forma igual, ativando seu instinto gregário — que busca segurança na igualdade e na repetição. Isso reforça a reação de defesa, já que o pânico moral faz eclodir uma guerra ideológica para eliminar tudo o que for diferente.
Nogiri Filho e Câmara (2026)[1] salientam que “o ativismo neoconservador se estabelece na criação do pânico moral e de um inimigo”. Obviamente, as pessoas mais incautas acreditarão e darão vazão a esses pensamentos, perpetuando o poder da manipulação política perversa e tendenciosa, que usurpará até mesmo a dignidade do cidadão. Entretanto, cabe à educação trabalhar o discernimento de seu discente, para que este não seja ludibriado pela moral do rebanho — que funciona como o canto das sereias, encantando os marinheiros apenas para levá-los à deriva e à destruição.
[1] NOGIRI FILHO, H. C.; CÂMARA, H. F.. Pânico moral e ativismo neoconservador: uma análise da audiência pública na câmara dos deputados sobre crianças e adolescentes transgêneros. Revista Direito e Práxis, v. 17, n. 1, p. e92622, 2026.