02/03/2026

Educação e Conscientização: Rompendo o Ciclo da Violência Simbólica e da Desumanização

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Ao se falar em violência, o senso comum costuma evocar as formas físicas ou psicológicas, mas poucos compreendem a violência simbólica — aquela que banaliza as piores barbáries que um ser humano pode praticar ou sofrer. Esse conceito, desenvolvido por Pierre Bourdieu, define uma dominação sutil, invisível e não física, exercida pela imposição de normas, valores e padrões culturais de grupos dominantes sobre grupos subjugados. Manifesta-se no cotidiano, na linguagem e nas instituições, naturalizando desigualdades de raça, classe e gênero de modo que a vítima, muitas vezes, não perceba a própria opressão.

Segundo Rosa e Brito (2009)[1], trata-se de uma violência pouco compreendida e legitimada por um processo histórico em que atos vis são normalizados, o que evidencia a estrutura de caráter de quem a pratica. Para esses autores, tal violência explicita uma relação de subjugação-submissão amparada pela cumplicidade de autoridades ou figuras que deveriam oferecer proteção, mas que preferem fomentar discursos que instigam a banalização da barbárie. Como elucidam Metzger, Maugeri e Benedetto-Meyer (2012) [2], para que esse tipo de violência se exerça de forma duradoura, ela precisa contar com o apoio das estruturas sociais e das disposições mentais produzidas por essa própria estrutura.

Moretti-Pires, Vieira e Finkler (2022) [3] acrescentam que a violência simbólica apoia-se em expectativas coletivas e crenças socialmente inculcadas. Agentes e instituições firmam o exercício da autoridade ao perpetrar discursos moralistas, transformando essa violência no que Rosa e Brito (2009) definem como um "produto social".

A natureza corruptiva da violência simbólica é reforçada por França et al. (2010)[4], ao esclarecerem que ela ocorre no próprio habitus. Amparada em crenças e valores socializados, ela se naturaliza no processo de dominação e exclusão. Assim, a sua banalização orienta os indivíduos no espaço social conforme os padrões dominantes, fazendo com que a violência seja consentida por quem a sofre e tornando-a imperceptível.

Na perspectiva de Andrea Vermont[5], a violência simbólica é a aplicação da desumanização por meio da ruptura da ética. Isso faz com que os agressores atuem com naturalidade e preconceito, enquanto as vítimas sentem vergonha de sua condição; nesse cenário, o algoz é visto como alguém que apenas segue o que é aceito socialmente.

Assim, é imperativo que a educação ensine a intolerância a qualquer tipo de violência ou preconceito. O processo de conscientização é fundamental para a vida em sociedade pois, na visão kantiana de que "o homem é o que a educação faz dele", cabe ao ensino inseri-lo plenamente no estado de cultura.

 

[1] ROSA, A. R.; BRITO, M. J. DE .. Ensaio sobre violência simbólica nas organizações. Organizações & Sociedade, v. 16, n. 51, p. 629–646, out. 2009.

[2] METZGER, J.-L.; MAUGERI, S.; BENEDETTO-MEYER, M.. Predomínio da gestão e violência simbólica. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 37, n. 126, p. 225–242, jul. 2012

[3] MORETTI-PIRES, R. O.; VIEIRA, M.; FINKLER, M.. Violência simbólica na experiência de estudantes universitários LGBT. Saúde e Sociedade, v. 31, n. 4, p. e200662pt, 2022.

[4] FRANÇA, I. S. X. DE . et al.. Violência simbólica no acesso das pessoas com deficiência às unidades básicas de saúde. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 63, n. 6, p. 964–970, nov. 2010.

[5] Andrea Vermont: psicanalista, doutora em Filosofia da Mente/Neurociência

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