01/04/2026

Educação e o Fascínio Pela Inovação Vazia

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

É sabido que a educação, para muitos, é considerada uma ação subversiva. Isso ocorre porque ela retira o cidadão da inércia em que se encontra, desenvolvendo nele a aquisição de conhecimentos, habilidades, valores, atitudes, hábitos e discernimento — elementos que permitem a esse indivíduo ser o protagonista de sua própria vida.

Trabalhar com essa educação nem sempre exige o amparo da inovação tecnológica; por vezes, o simples instiga mais aprendizado que o inovador. Isso derruba o mito de que a tecnologia é a ferramenta essencial para melhorar a qualidade educacional, visto que muitas instituições sucumbem ao fascínio pela "inovação vazia". Ou seja: adquirem tecnologias cuja aplicabilidade será deficitária, às vezes pela própria falta de estrutura física e/ou cognitiva dos envolvidos.

Existem três situações que agravam a inovação vazia. A primeira é o tecnocentrismo, que ocorre quando se substitui um livro físico ou uma aula por um tablet. Todavia, essa mudança é estéril se a aula permanece expositiva e passiva; apesar de mudar a ferramenta, a dinâmica aplicada é a mesma. Não há um planejamento que instigue uma ação racional por parte dos alunos, prática que tem sido muito reincidente.

A segunda situação agravante refere-se à chamada gourmetização pedagógica, com a adoção de termos como gamificação, sala de aula invertida e cultura maker, mas sem conhecimento real sobre o assunto. Faz-se apenas o marketing de uma aula medíocre, sem planejamento e sem resultados voltados à criticidade e à construção do conhecimento do discente. Isso acontece porque muitos docentes possuem apenas conhecimentos superficiais e generalistas sobre essas inovações, sem contar o sistema que, nem sempre, oferece autonomia para que os profissionais capacitados façam uso efetivo dessas metodologias.

Seguindo o modismo tecnológico, algumas instituições simplesmente adquirem soluções prontas: pacotes tecnológicos caros com a falsa certeza de que eles, por si só, resolverão as mazelas da educação, como a defasagem de aprendizado. Os gestores olvidam o fator humano, o contexto social do corpo discente e a necessidade de formação continuada dos professores. É um universo de variáveis simplesmente desconsideradas ao se adquirir um "pacote" dessa natureza.

Toda inovação precisa ser, antes, pedagógica. Precisa instigar o aluno a sair da passividade para ser um protagonista cognoscente, pesquisador, criador e com plena autonomia intelectual. A inovação também precisa de intencionalidade: a ciência de que tal uso fará o aluno pensar melhor e resolver problemas.

Cabe ressaltar que toda inovação válida foca no “para que” e no “como se aprende” por meio dela, sabendo que o profissional é insubstituível no processo de educar. Como afirmava Demo[1], ao elucidar que a crítica é necessária para a aprendizagem com autonomia: toda aprendizagem deve incluir a convivência comum com um bem maior. Mais importante que inovar é humanizar a inovação.

Assim sendo, que possamos perceber que as inovações devem ter o intuito de tornar o ato de educar mais efetivo, e não ser apenas uma forma de enfeitar uma aula sem propósito para a autonomia intelectual do aluno.

 

[1] DEMO, Pedro.  Saber Pensar. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2000 – (Guia da Escola Cidadã; v. 6)

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