Educação entre Versos e Verdades
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A educação, como ação transformadora, pode desenvolver o discernimento no aluno por meio de músicas (melodia e letra) das décadas de 70 a 90. Essas obras instigam a reflexão sobre o status quo e permitem trazer o conteúdo das mensagens transmitidas para o nosso contexto atual.
Vivemos hoje uma decadência abismal de moralidade, tanto de líderes religiosos quanto de políticos. Para contextualizar essa realidade, tivemos, por exemplo, parlamentares que, ao invés de defender os interesses do povo, priorizaram a defesa de empresários — como na não aprovação do fim da escala 6x1 —, chegando ao ponto de proferir falas de que o trabalhador deve trabalhar até a exaustão[1].
Um exemplo atual que podemos utilizar é a música "Construção" (1971), de Chico Buarque. Cantor, compositor, dramaturgo e escritor, Chico é detentor de uma inteligência ímpar que lhe rendeu inúmeros prêmios. Sua música é vista como uma obra-prima que critica, de forma inteligente, a desumanização do trabalho, a alienação capitalista e a indiferença social na época da ditadura — indiferença esta que se repete hodiernamente.
Observa-se que políticos e empresários ainda alimentam o "sonho" da escravidão ou do trabalho análogo à escravidão. Prova disso é que um certo governador afirmou, em 2018, que em regiões mais pobres, como o Vale do Jequitinhonha e Mucuri, seria possível contratar domésticas por R$ 300,00[2] mensais; hoje, ele defende o trabalho infantil e afirma que, se eleito presidente, mudará a legislação[3].
Há também quem defenda a perda de direitos trabalhistas por meio de novos formatos de contratação, retirando conquistas de trabalhadores e pensionistas. O modelo seguido é o de Javier Milei na Argentina: aumento da jornada diária de 8 para 12 horas com banco de horas, redução da atuação e do poder dos sindicatos, limitação do direito de greve (obrigando 75% da categoria a trabalhar) e parcelamento de férias em períodos mínimos de 7 dias, entre outros direitos que simplesmente deixaram de existir.
Isso apenas reforça o que Chico Buarque explicitava em sua música: a desumanização do trabalho para que o poder do capital prevaleça sobre as amarras do neoliberalismo.
É fascinante pensar em uma aula que utilize a música para desenvolver a consciência de classe e política nos alunos. Isso permite alavancar a criticidade, a autonomia intelectual e o protagonismo cognoscente. Além de Chico, temos Renato Russo com "A Canção do Senhor da Guerra" (1992), que questiona a prioridade do lucro sobre a vida. A letra demonstra que a indústria bélica é mais rentável que a produção de alimentos ao indagar: "pra que exportar comida se as armas dão mais lucro na exportação?". Isso leva os alunos a observarem que o país que mais exporta armas é o que mais instiga a guerra, já que sua economia dela depende — tanto que, em 2025, os EUA bateram recorde nas vendas de equipamentos militares, atingindo US$ 331,18 bilhões.
Como dizia Renato Russo em "Que País é Este" (1978), a crítica à corrupção, à desigualdade e à impunidade é contundente e pessimista. Como exemplo atual, temos o caso do senador que recebia uma "mesada" de R$ 300 mil (podendo chegar a R$ 500 mil) para defender os interesses de Daniel Vorcaro[4], do Banco Master. Enfim, a sujeira parece estar em todo lado, especialmente no Senado.
Como ensinou Paulo Freire, "a educação não muda o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas mudam o mundo". Dito isso, que a nossa revolução ocorra por meio da poesia e da música. Que nossos alunos aprendam que a dignidade é o nosso bem mais precioso e que não a percamos. Por mais que representantes políticos e religiosos apresentem desvios de caráter e decadência moral, que possamos, por meio de uma educação de qualidade, fazer prevalecer o senso de humanidade, da ética e da justiça.
[1] https://www.terra.com.br/noticias/educacao/carreira/videos/feliciano-defende-trabalho-ate-a-exaustao-em-comissao-da-camara,b1a6acfbed908be6f0cf4613a0e03db081ewgbdz.html#google_vignette
[2] Entrevista concedida por Romeu Zema à Central Rádio, de Belo Horizonte, durante a campanha eleitoral de 2018.
[3]https://fpabramo.org.br/fala-de-zema-sobre-trabalho-infantil-contrasta-com-resgate-de-mais-de-6-mil-criancas-no-pais/
[4] https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pagamento-de-500k-ou-300k-pf-cita-mesada-de-vorcaro-a-ciro-nogueira/