Em Aracaju estudantes criam projeto sobre o lixo
As soluções para o lixo são conhecidas de todos: coleta seletiva, organização de cooperativas para a reciclagem, transformação do lixo orgânico em adubo, campanha de conscientização, estações de tratamento, miniusinas de gás. Mas quando os alunos de ensino médio do Colégio Estadual João Alves Filho, em Aracaju, descobriram isso por conta própria, demonstraram estar envolvidos com os problemas da comunidade e conscientes de que a situação precisa mudar.
Os problemas da cidade com o lixo são muitos. Existe até o perigo de acidente de avião, por causa do ''lixão'' que fica próximo ao aeroporto. Os urubus rondam o bairro da Terra Dura — como é chamada a região em que é depositado todo o lixo de Aracaju -, colocando em risco as aeronaves que chegam e saem de Sergipe.
A idéia de trabalhar com um projeto sobre o lixo veio de um aluno do 2º ano do ensino médio da classe de Física da professora Eliane Flores. Ele assistiu em casa a um vídeo sobre um lixão de Porto Alegre e percebeu que havia relação entre o que viu e alguns conteúdos da Física. A professora pediu que o jovem levasse a fita para a classe, para que todos assistissem, e depois da exibição perguntou aos alunos que outras matérias poderiam ser trabalhadas. Eles logo perceberam que, além da Física, podiam estudar Biologia, em função das doenças causadas pelo lixo, e Filosofia, por causa da desigualdade social. No fim da aula, descobriram que todas as matérias poderiam ser estudadas. Foi assim que surgiu o projeto interdisciplinar Resíduos Sólidos, vencedor regional do Prêmio Grupo Ciência.
Lixo vira moda — Para conhecer o problema do lixo em Aracaju, a turma visitou o lixão e usinas de tratamento e de reciclagem. A professora de Artes ensinou a fazer peças com material reciclável, como velas e enfeites de natal. Mas os meninos e meninas surpreenderam: criaram blusas e saias feitas de câmara de pneu velho e um vestido de noiva todo de sacos plásticos transparentes. Um dos estudantes produziu um tecido enfeitado com gotas que brilham no escuro. O efeito foi conseguido derretendo garrafas pet em cima do tecido. Um vestido confeccionado com CDs imprestáveis refletia todas as cores, durante a noite. Com essa e outras peças, a escola promoveu um desfile de modas que, segundo a professora Eliane, foi um verdadeiro sucesso. Sucesso também teve a peça de teatro A cidade do lixo transformada em luxo, criada pela turma.
Hoje, os estudantes não estudam mais o assunto a partir do filme gaúcho. Produziram uma fita de vídeo sobre o problema do lixo em Aracaju e agora trabalham com a própria realidade. A partir daí, a conscientização na escola aumentou. Segundo a coordenadora do projeto, o colégio, que era árido e poluído, hoje está arborizado e limpo.
Segundo a professora Eliane Flores, não é nada fácil ensinar dessa forma. “Alguns professores não estão dispostos porque é muito mais fácil dar aula no quadro-negro do que sair a campo. Isso dá trabalho”. Outra dificuldade é a falta de infra-estrutura da escola: “Até fotocópia a gente tem de tirar por conta própria, porque a escola não tem”. Com o prêmio de R$ 20 mil, isso deve mudar. O dinheiro tem de ser usado para a continuidade do projeto ou o desenvolvimento de outros projetos pedagógicos nas áreas das ciências da natureza e matemática, e a instituição deve prestar contas ao MEC dentro de um ano.
(MEC)