30/01/2026

Entre o Lucro e o Saber: A Crise de Qualidade nas Universidades

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Pode-se afirmar que a educação pública brasileira é paradoxal ao confrontarmos o Ensino Superior com a Educação Fundamental. Esta última, salvo raras exceções, enfrenta desafios hercúleos para garantir um ensino de qualidade. Em contrapartida, no Ensino Superior, muitas universidades federais são referências inquestionáveis, promovendo a autonomia intelectual, o discernimento e a busca constante pelo conhecimento.

Entretanto, uma realidade preocupante tem maculado a reputação dessas instituições: a precariedade intelectual de alunos que buscam "atalhos" para obter créditos acadêmicos. Fenômeno semelhante ocorre na rede privada de ensino básico, onde responsáveis, ao perceberem o risco de reprovação, transferem os filhos para escolas públicas. Nessas, muitas vezes, o critério de aprovação é serial e focado em metas estatísticas — frequentemente superiores a 95% — para garantir uma boa pontuação no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica).

No nível superior, o problema se manifesta quando alunos de universidades federais, ao não atingirem o desempenho mínimo em disciplinas complexas, recorrem a faculdades EAD que oferecem matérias isoladas para driblar a reprovação. Essa prática alimenta uma verdadeira mercantilização do ensino. Instituições privadas focam nesse nicho, oferecendo ementas de validade questionável e critérios de avaliação frouxos, o que resulta em um déficit de conhecimento técnico.

O agravante é que, embora essa ação seja moralmente questionável, ela é amparada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Como os diplomas e créditos de instituições credenciadas pelo MEC possuem validade nacional, as universidades federais ficam juridicamente engessadas, sendo obrigadas a reconhecer esses créditos. Abre-se, assim, uma janela de oportunidade para alunos evitarem as disciplinas "divisoras de águas", criando um ciclo vicioso que compromete a qualidade dos egressos e mancha o nome da instituição. 

Atualmente, esse nicho é tão lucrativo que instituições EAD oferecem disciplinas isoladas por valores tão baixos quanto R$ 60,00, utilizando um marketing agressivo que promete "conclusão em tempo recorde" para "destravar" a faculdade[1]. Esse mercado paralelo, que disponibiliza vastos portfólios de matérias, transforma a educação em um "comércio persa".

Em suma, a educação é um pilar social, não um mero comércio de diplomas. A aceitação dessa negligência intelectual coloca no mercado profissionais sem ética e sem as competências necessárias, cujas lacunas cognitivas podem, futuramente, colocar vidas e projetos em risco.

 

[1]https://educacao.uol.com.br/noticias/2026/01/29/alunos-recorrem-a-ead-de-r-60-para-nao-bombar-em-universidades-publicas.htm

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