Escola não é Templo: Os Impactos da Imposição da Bíblia na Educação Pública
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Apesar de sabermos que nas escolas brasileiras deve imperar a laicidade, movimentos pentecostais lutam para que a Bíblia seja um livro estudado por essas instituições. Todavia, cabe às escolas garantir a liberdade de crença e a diversidade. O ensino religioso deve abordar todas as religiões, sejam elas cristãs ou não, mas sem um viés tendencioso e cristianizado.
Dito isso, Lionco e Mattos (2021) [1] relatam pesquisas apontando que a promoção de textos religiosos específicos nessas instituições públicas tende a gerar tensões legais, exclusão de minorias e desafios para a diversidade cultural. Além disso, aumenta a intolerância religiosa em um ambiente no qual deveriam imperar o respeito, a ciência e o conhecimento. Como pontuado pelas pesquisadoras supracitadas, “a laicidade é o princípio norteador das políticas públicas de educação no Brasil”.
O fato é que, em toda e qualquer instituição educacional, não cabem as teorias criacionistas. Isso porque o criacionismo é impositivo, já que a conclusão vem previamente estabelecida e se embasa apenas em fatos que apoiem a crença, rejeitando o que a contradiz. É a alienação travestida de religião. Em contrapartida, quando as escolas se baseiam no evolucionismo, a dúvida impera e a pesquisa sobressai, o que culmina na observação, na hipótese e em testes exaustivos, fazendo nascer o conhecimento balizado na ciência.
A escola não é uma instituição de adestramento, mas sim de saber, de fomento à autonomia intelectual, de transformação e não de docilização por viés religioso. Como dizia Chagdud Tulku Rinpoche: “Se alguém precisa de religião para ser bom, a pessoa não é boa, é um cão adestrado".
Cabe salientar, nas falas de Santos (2022)[2], que o ensino religioso pode ser válido quando trabalha o estudo das religiões propiciando aos discentes conhecer a história, a política e a cultura dessas crenças pelo viés antropológico, sociológico e filosófico, além do olhar agnóstico ou até mesmo ateu no meio da sociedade.
O intuito do ensino religioso está em promover a empatia, a tolerância, o combate ao preconceito e à intolerância. A imposição de usar a Bíblia como referência será uma forma de impor um ensino com viés politizado, manipulador e alienante para toda uma geração. Esta acabará tolhida do pensamento crítico, da consciência intercultural em uma sociedade plural e, inclusive, da autonomia intelectual, bem como do protagonismo cognoscente.
Não se pode usar a Bíblia como material didático no ensino religioso, pois tal disciplina tem que abordar diversas religiões, suas obras, seus modelos, suas histórias e suas consequências diante dos extremismos. Isso propiciará uma visão de mundo com valores éticos e com verdadeiros questionamentos quanto à existência da humanidade.
O ensino religioso tem sua importância para um melhor entendimento da alfabetização cultural, já que auxiliará em uma leitura mais aprofundada do mundo ao redor. Afinal, a arte, a moral, as leis, o ensino e os feriados encontram-se balizados nas tradições religiosas. Quando se impõe o uso da Bíblia, a verdadeira intenção é a docilização de uma geração. Contudo, a função do educador não é docilizar seu aluno, mas trabalhar nele o conhecimento que o fará sair da inércia e se tornar um agente transformador de sua realidade.
[1] LIONCO, Tatiana; MATTOS, Amana Rocha. Ensino do Criacionismo e da Bíblia nas Escolas Brasileiras: Análise de Proposições Legislativas Atuais. Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro, v. 21, n. spe, p. 1352-1373, 2021. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-2812021000400005&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 13 jul. 2026. https://doi.org/10.12957/epp.2021.63944.
[2] SANTOS, João Vitor. Nem só católico, nem só evangélico: o Brasil das múltiplas religiões e religiosidades revelado pelos jovens. Entrevista com Regina Novaes. São Leopoldo: Instituto Humanitas Unisinos, 2022.