Estudantes da UnB ensinam português para mutilados de guerra de Angola
As quase três décadas da guerra que assolou Angola deixaram um saldo perverso na população de cerca de 13 milhões de habitantes: 200 mil mutilados acidentais. São pessoas que tiveram ferimentos graves nos membros, na visão e na audição ao pisarem em minas terrestres instaladas por todo o território do país africano. Esses homens, mulheres, crianças e velhos acabam geralmente abandonados pela família e marginalizados pela sociedade. Um esforço de duas alunas da Universidade de Brasília (UnB) quer contribuir para mudar essa situação. As estudantes vão preparar metodologias e materiais didáticos para ensinar os angolanos mutilados a ter fluência na língua portuguesa de modo que possam buscar uma inserção digna no mercado de trabalho.
A iniciativa é das alunas Aline Simo Ferreira, 21 anos, e Eliani de Morais, 23. Elas cursam o 6º semestre de Licenciatura em Português do Brasil como Segunda Língua, do Departamento de Lingüística, Línguas Clássicas e Vernácula (LIV) da UnB. As duas são vinculadas ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) e orientadas pela professora do LIV Enilde Faulstich, que ministra a disciplina Política do Idioma.
O trabalho se divide em três grandes etapas: agora, Eliani e Aline coletam dados, por meio da gravação de conversas de universitários e diplomatas angolanos residentes em Brasília. As alunas transcrevem as conversas, todas espontâneas, e identificam as diferenças nas estruturas gramaticais e lexicais (de significado) entre a variedade do português de Angola e do Brasil. Depois dessa catalogação, elas vão elaborar metodologias para o ensino oral da língua às pessoas que perderam os braços. Por isso, as técnicas de aprendizagem devem ser adaptadas a quem não pode escrever.
A intenção é desenvolver as potencialidades dos mutilados, que mantêm intactas as capacidades mentais e da voz. As estudantes, que recebem apoio da Embaixada de Angola e da Associação dos Alunos Angolanos da UnB, vão trabalhar inicialmente com dois grupos - o primeiro, de pré-adolescentes de 11 a 14 anos, matriculados no ensino base de 1º ciclo em Angola. O segundo, de jovens de 15 a 18 anos, do ensino base de 2º ciclo. Eles já foram alfabetizados, mas não têm o domínio do idioma para situações formais em a língua bem falada é requisito para um emprego.
A dificuldade em Angola é que todos falam o português, mas poucos são os que têm nele a língua materna. Há dezenas de línguas nacionais no país, nas quais oito, derivadas do bantu, se sobressaem: umbundo, kinbundo, kikongo, fiote, cokwe, n`ganguela, nyaneka e kwanyama. Falar o português adequadamente – com correção gramatical – pode ser a porta de entrada para o mercado para quem não consegue mais fazer trabalhos manuais.