Estudo aponta modificações das histórias em quadrinhos na internet
Por Oscar D'Ambrosio
Com o desenvolvimento e popularização da internet, as histórias em quadrinhos (HQs), tradicionalmente produzidas para serem lidas em papel, não perderam seu público ou espaço. No entanto, com a interatividade possibilitada pela tecnologia e pela rede mundial de computadores, elas tendem a se transformar em algo novo.
Os prováveis caminhos das HQs são apontados por Anselmo Gimenez Mendo, em sua dissertação de mestrado História em Quadrinhos: impresso vs web, apresentada no Instituto de Artes (IA) da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de São Paulo. A pesquisa traz subsídios para reflexão em torno da presença dos quadrinhos na rede de dados.
Inicialmente, o trabalho mostra como a HQ se mantém viva há mais de um século entre os meios de comunicação de massa como linguagem consolidada e amplamente difundida. No final do século XX, contudo, o computador passou a ser ferramenta essencial à criação e produção de quadrinhos. "O processo eletrônico substituiu o mecânico no fazer artístico, mas os meios convencionais de impressão não se alteraram", explica Mendo. "Pincéis foram muitas vezes substituídos por mouses ou canetas digitais; as cores dos pigmentos pela luz dos monitores de vídeo; e a finalização dos trabalhos de forma digital passou a ser uma exigência do mercado."
Em mais de cem anos de existência, a HQ delimitou suas fronteiras como expressão artística impressa, com personagens regulares, quadros, balões, onomatopéias e metáforas visuais. "Ao longo de sua história, ela foi se relacionando com a imprensa, onde as histórias eram efetivamente publicadas e, depois, com o cinema, o desenho animado e com a televisão", comenta. "Não poderia ser diferente com a internet."
Novas possibilidades surgiram e influenciaram o modo de pensar a linguagem, a técnica e o negócio das HQs, com a consolidação da rede de computadores como um meio de comunicação. Segundo o pesquisador, o ambiente hipermidiático, nascido com a internet, foi o que interferiu no modo de criação. Os sistemas de distribuição de informação no ciberespaço possibilitaram que a tela do computador fosse utilizada como suporte à criação e à fruição das HQs.
Em seu estudo, o autor verifica que é possível encontrar na rede de dados um incontável número de trabalhos em quadrinhos com os mais variados níveis de adaptação: desde a simples transposição da história impressa pela digitalização de imagens até histórias com intensivo uso de recursos de animação, som e interatividade. "A nova forma assumida aproxima as HQs cada vez mais de outras mídias como os videogames e os desenhos animados", diz.
Destino das HQs - Em termos gerais, segundo a pesquisa, as HQs na internet não perderam elementos característicos básicos e nem ganharam novos que justificassem um neologismo para classificá-la. "Parte dos quadrinhos não merece um novo nome na web porque continuam a se parecer demasiadamente com os impressos", diz Mendo. "Por outro lado, há as HQs que se afastam de suas definições fundamentais quando adicionam novos recursos à linguagem", diz.
Nestas novas formas, o leitor/jogador sente-se mais próximo de ser o protagonista. "Em determinados momentos, o usuário assume a mesma função que teria em um game e participa ativamente da ação. Assim, a linguagem dos jogos eletrônicos se envolve de forma coesa com a da HQ, mas, mesmo assim, pode-se identificar ambas dentro da criação. Hora percebemos uma HQ com aspectos de videogame, hora notamos o jogo eletrônico com característica de quadrinhos", analisa.
Mendo conclui que o que realmente mudou com a consolidação do ciberespaço foi a postura do leitor que formou seu repertório imagético pela leitura de material impresso. A HQ na internet criou um usuário mais participativo com a possibilidade de interação com a história, seus personagens e autores. "Não surgiu um novo leitor de quadrinhos, mas um usuário que assimilou a tecnologia para ter acesso a conteúdo derivado do meio que ele já conhecia."