Estudo revela solidão de crianças na frente da TV
Passar de quatro a cinco horas por dia em frente à televisão é comum entre crianças e adolescentes. Esse fato faz com que, cada vez mais, a qualidade dos programas veiculados represente preocupação constante para os pais. Nos últimos anos, inúmeras pesquisas têm sido realizadas sobre o suposto "poder de manipulação" dessa mídia. Com o objetivo de descobrir como a população na faixa etária de sete a 13 anos assiste à TV, a professora de psiquiatria da Faculdade de Medicina Nina Rosa Furtado desenvolveu, em parceria com a professora Tatiana Franarin, do Colégio Marista Irmão José Otão, o estudo intitulado “A televisão na vida de crianças e adolescentes”.
A partir da aplicação de um questionário em aproximadamente 200 alunos da escola, foi possível verificar, entre outros aspectos, quantas horas eles ficam em frente à TV e quais os seus programas prediletos. Os resultados mostraram que 60% dos entrevistados assistem de quatro a cinco horas por dia e 70% vêem sozinhos os programas. "O que mais nos chamou atenção foi a solidão das crianças em idade escolar. Elas não têm nenhum auxílio para opinar a respeito do que lhes parece certo, errado e ético", acredita Nina.
A pesquisa também deflagrou outro aspecto bastante evidenciado nos dias atuais: a violência na mídia. Apesar de a maioria dos pais acreditarem que uma parcela significativa dos programas explora em demasia a agressividade, o estudo constatou que a personagem mais querida pela gurizada é o Bob Esponja Calça Quadrada. O desenho caracteriza-se pela inocência. Bob é atrapalhado, ama seu emprego (cozinheiro do Siri Cascudo) e sempre tenta ajudar os outros. "Os pais preocupam-se com os conteúdos veiculados, mas não sabem o que os filhos vêem na TV", constata Nina.
Com base na coleta de dados, observou-se a falta da capacidade de outras influências – a exemplo da família e escola – em competir com a televisão na vida da garotada. O vasto público atingido pelo veículo ressalta sua importância. "Hoje, sabe-se que crianças com apenas um ano de idade ou até menos já assistem à TV", destaca a pesquisadora.
O estudo teve por objetivo chamar a atenção sobre a necessidade de reflexão a respeito do tema. "Nós não queremos demonizar a televisão. Acreditamos que ela influencia, mas não tem o poder de manipular a vida das pessoas", afirma Nina. A pesquisadora pretende, em conjunto com a doutora Norma Escosteguy, do Centro de Estudos em Psiquiatria Integrada, transformar a pesquisa num trabalho a ser publicado futuramente.