Extremismo Religioso na Contramão da Educação
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A docência transformou-se em uma área totalmente insalubre. Quando os direitos não são violados pelos alunos e pelos próprios pais — que se julgam no direito de agredir o docente tanto verbal quanto fisicamente —, esses mesmos profissionais sofrem coação por parte da Polícia Militar. Os militares, que frequentemente sequer conhecem a Lei de Diretrizes de Base da Educação Nacional (LDB); Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ou qualquer conteúdo contigo nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), invadem as escolas para questionar o que está sendo ensinado. O problema é que os policiais envolvidos nessas invasões demonstram o mesmo grau de alienação que os pais reclamantes por pertencerem ao mesmo tipo de religião usurpadora de qualquer tipo de sinapse cognitiva, desconhecendo por completo a Lei nº 10.639/2003.
A gravidade do cenário é tamanha que esses grupos se aproveitam da intolerância religiosa para interferir no ensino da cultura afrodescendente. Partindo do pressuposto de que seus filhos não devem assistir a tais aulas, os pais acionam os policiais militares que, movidos por igual desconhecimento, invadem as instituições escolares armados para coibir as práticas culturais. Nessas ações, intimidam professores, arrancam cartazes e saem impunes. Afinal de contas, esses policiais, marcados por um profundo deficit cultural, consideram-se no direito de interferir na educação formal, embora alguns mal consigam formular uma frase inteligível sem macular a língua portuguesa.
A invasão da PM em escolas de diversos estados tornou-se uma ação normalizada com o intuito de coagir professores, ignorando as leis que regem a educação, como as citadas anteriormente. Os docentes são tratados como marginais, de forma truculenta e arbitrária. Esse comportamento reforça a alienação oriunda de certas vertentes religiosas pentecostais, nas quais se estabelece o desrespeito às diferenças, ao ensino e ao profissional, perpetuando a ignorância.
Apesar de o Brasil ser um Estado laico por determinação da Constituição Federal de 1988, o fanatismo busca impor que as escolas omitam qualquer conteúdo que divirja de suas crenças — dogmas baseados em períodos míticos e lendários, balizados por mitos mesopotâmicos e narrativas sem evidências arqueológicas. Ao questionar a Lei nº 10.639/2003[1], o policial militar ignora que essa legislação surgiu justamente para romper com o modelo de ensino eurocêntrico e promover uma educação antirracista. A norma determina a inclusão de conteúdos que resgatem a contribuição do povo negro na formação da sociedade nacional, focando na história da África e dos povos africanos, na luta dos negros no país (como a resistência e os quilombos) e na cultura negra brasileira, o que contempla a música, a culinária, as artes e as religiões de matrizes africanas. O último pilar da lei foca no protagonismo negro como sujeito histórico nas esferas social, econômica e política.
Vale ressaltar que essa legislação, cinco anos depois, foi expandida pela Lei nº 11.645/2008, aplicando as mesmas diretrizes ao povo indígena e consolidando a pluralidade étnica do país. Contudo, se a estrutura social depender desse segmento imbecilizado pela alienação, o Brasil se tornará uma sociedade totalmente excludente, estruturada em um sistema de castas: negros e indígenas ocuparão a base social (como os Dalits), enquanto os religiosos pentecostais se colocarão no topo (como os Brâmanes).
Para Santos e Ribeiro (2021)[2], a laicidade do Estado existe desde a Constituição republicana de 1891 e foi corroborada na Carta Magna de 1988. Todavia, prevalece o preconceito contra manifestações que não representam as religiões tradicionais de matriz europeia. Práticas não cristãs, como as religiões de origem africana (Candomblé, Umbanda e Quimbanda), continuam sendo marginalizadas, mesmo diante da vigência da Lei nº 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira.
Alinhado ao pensamento dos pesquisadores citados, recorda-se que os negros escravizados — que tiveram suas culturas sistematicamente apagadas — eram obrigados a se batizar para a "salvação de suas almas", curvando-se às doutrinas religiosas de seus senhores. Essa intolerância persiste sob a mesma premissa contemporânea: qualquer religião fora do eixo cristão não será vista com bons olhos pela sociedade, ainda que a conduta moral desses críticos destoe completamente dos próprios ensinamentos cristãos.
[1]https://www.linkedin.com/posts/elianarezende_polaedcia-professora-afrobrasileiro-ugcPost-7474912206065856513-latH/?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAAAmfBawBhbvRi_0fhaHJjab3gn5yc0_FDJ0
[2] SANTOS, Jéssica Silva; RIBEIRO, Weberly Diane Vieira Vitorino. Intolerância Religiosa no Contexto da Lei 10/639/03: Marginalização dos Povos Afro Brasileiro. Semi Edu. UFMT. 2021.