11/08/2005

Faculdade de Veterinária da USP desenvolve método que permite utilização de cadáveres em aula

O uso de animais para estudo sempre causou polêmica e não raro coloca em lados opostos do ringue os pesquisadores e os defensores dos animais. A Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), no entanto, está provando que, na verdade, quando possível, as duas partes podem estar lado-a-lado.

No curso da Veterinária foi descoberta uma forma de reutilizar cadáveres de animais. Através de uma substância, a solução de Larssen, usada para embalsamar cadáveres humanos acrescida de glicerina, os corpos se mantêm mesmo após congelamento e descongelamento.

A fórmula descoberta pelo professor Antônio Augusto Coppi Maciel é o Larssen acrescido de 400 mililitros de glicerina líquida, 100 ml de formalina a 10%, 200 gramas de bicarbonato de sódio, 200 gramas de hidrato de cloral, 180 gramas de cloreto de sódio e 2000 mililitros de água destilada.

Com o uso da solução, os cadáveres dos animais mantêm seus tecidos com cor e flexibilidades preservados, especialmente pele e músculos. Antes eram sacrificados 440 cães saudáveis por ano para o treinamento de cirurgia. Hoje, com a solução, são usados 40, sendo todos já mortos (a USP recebe doação de corpos). São utilizados para treinamento de nós e suturas, de técnicas de reconstrução da pele (anaplastia), cirurgias da orelha, da cavidade oral, de anastomose intestinal (em que se corta e sutura o intestino novamente) e esofagotomia vertical, traqueostomia, ressecção de glândula mandibular e sublingual.

Segundo a professora de Técnica Cirúrgica da FMVZ, os métodos alternativos têm crescido no mundo todo. Nos Estados Unidos são 31 faculdades de medicina veterinária, das quais 27 não usam mais animais vivos. Na Europa, há o Ecvam (European Centre for the Validation of Alternatives Methods), que coordena e valida métodos alternativos e promove a interação entre legisladores, indústrias, cientistas, associações de consumidores e entidades de proteção animal.

Além do benefício para os animais, também parece ser um alívio para os alunos. "Para grande parte dos alunos era difícil ver o cão todo feliz, brincando com eles antes da aula, sabendo que depois iríamos anestesiá-los e sacrificá-los. Sem esse tipo de estresse o aluno fica mais tranqüilo e consegue absorver mais o conteúdo da aula", conta.

Segundo trabalho de mestrado de Rosane Maria Guimarães da Silva, na FMVZ, dos 190 estudantes que cursaram a disciplina de Técnica Cirúrgica entre 2001 e 2003, 93,29% são a favor do método de ensino que inclui o treinamento inicial em cadáveres, seguido de castrações em campanhas. Já 84,79% considerou que o conteúdo da aula foi bem assimilado. Com informações da Agência USP e da organização não-governamental Arca Brasil.

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