Fé e Poder: A Necessária Distinção entre Religião e Política Partidária
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Este texto não visa refutar a religião, mas demonstrar que a fé e a política partidária são — e devem continuar sendo — instâncias distintas. Afinal, enquanto a primeira conecta o ser humano ao transcendente, ao sagrado e ao divino, a segunda constitui a ciência, a arte e a prática de organizar a sociedade por meio do poder e da tomada de decisões coletivas. Prova disso é que Rios, em seu livro Educação e Sociedade: Perspectiva política na prática educativa (Cortez), já afirmava que não existe vida social que não seja política. Diante dessa afirmação, Rodrigues, na obra Ética e Cidadania (Moderna), complementa que a política “é a tomada de decisões que visem objetivar interesses que irão refletir na coletividade”, sendo enfática ao discorrer que a ética e a política devem caminhar sempre juntas.
Dito isso, cabe ressaltar que vivemos constitucionalmente em um Estado laico. Isso significa que o Brasil não possui uma religião oficial e deve se manter neutro e imparcial em relação aos credos, respeitando a todos e permitindo que seu povo exerça a fé que melhor lhe orientar — ou mesmo a opção de não seguir religião alguma. Quando o Estado adota essa postura, subentende-se que a intolerância religiosa será reduzida, já que não há uma imposição de crenças. A história demonstra que a imposição de um credo e a busca pelo poder em nome de uma “verdade” absoluta geram conflitos severos; a fé passa a ser um fator predominantemente autoritário, aumentando a sede de controle e, consequentemente, gerando violências simbólicas e físicas. Assim ocorreu na Guerra Santa, na Inquisição e na Noite de São Bartolomeu, entre outros massacres perpetrados em nome de Deus.
A fé cega e alienante é uma fé assassina. Peguemos como exemplo o cacique Hatüey, líder indígena da etnia taína. Ele foi lembrado como o primeiro combatente anticolonialista das Américas. Conta-se que antes de ser queimado vivo pelos espanhóis, o Hatüey, chefe de uma tribo haitiana, foi questionado se desejava aceitar o cristianismo e ir para o céu. Ele perguntou se os espanhóis também iriam para o céu, ao que o padre respondeu que sim. Dessa forma o cacique respondeu: prefiro ir para o inferno onde não encontrarei pessoas tão cruéis.
Ao analisar os malefícios causados pela fé imposta, remetemo-nos às reflexões de Karl Marx, que afirmava ser a “religião o ópio do povo”. Para o filósofo, a melhoria da sociedade não ocorre pela imposição da fé, mas pelo fim da miséria que obriga o homem a buscar ilusões — as quais, no contexto atual, são frequentemente oferecidas por certas igrejas neopentecostais. Segundo a lógica marxista, a fé alivia as dores cotidianas e oferece uma falsa resiliência camuflada de salvação, mesmo diante da pobreza dos fiéis e da exploração por parte de líderes que ostentam riquezas e comportamentos vis. Na época de Marx, entendia-se que a religião produzia um efeito semelhante ao do ópio: um forte analgésico que aplaca a dor temporariamente, mas não cura a doença. Trata-se de uma fuga da realidade baseada na promessa de uma vida melhor após a morte. Para alcançar essa recompensa além-túmulo, exige-se a aceitação da miséria, das disparidades sociais, do extermínio de minorias e da indiferença com os vulneráveis; em suma, a nulidade da luta, uma vez que a crença impede que os oprimidos combatam os opressores.
Nesse cenário, promessas políticas que asseguram que o país "será cristão" caso determinado candidato vença tornam-se extremamente perigosas. Elas ferem a Constituição e a laicidade do país, além de fomentarem a intolerância religiosa, a exclusão social de cidadãos com outras crenças e uma teocracia que resultará em perseguições e perda de direitos civis. Ademais, a própria fé acaba convertida em instrumento de corrupção — fenômeno visível no ambiente neopentecostal —, visto que o poder político desvirtua os valores espirituais e morais originais da religião.
Portanto, é de suma importância que as escolas desenvolvam o discernimento dos alunos, permitindo-lhes compreender que um país religioso não se traduz automaticamente em uma nação desenvolvida e sem desigualdades sociais. O Japão serve como exemplo prático: é um dos países mais desenvolvidos do mundo e mantém uma neutralidade religiosa oficial em seu Estado, cuja Constituição estabelece a total separação entre as esferas governamental e espiritual, garantindo que o governo não financie, apoie ou reconheça qualquer religião como oficial.