Feira de Ciências da Escola Politécnica da USP revela cientistas do futuro
Apelidado de Murphy, o robô móvel, em forma de triciclo, abriga um algoritmo de inteligência artificial que o torna autônomo, com capacidade para encontrar as soluções dos problemas a ele propostos. Seu comando é feito por rádio e funciona por meio de oito sensores infravermelhos instalados na sua superfície e lidos por um microcontrolador. Abrange programação com mais de 6 mil linhas de código (ferramentas lógicas) e custou apenas R$ 234,00.
Produto de um programador experiente e altamente especializado? Que nada! A engenhoca é criação de um estudante de 15 anos, um dos promissores talentos premiados na 2ª edição da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), promovida pela Escola Politécnica da USP no mês passado.
O evento, que ocorreu pela primeira vez em2003, reuniu 180 projetos de pesquisa de estudantes da 8ª série dos ensinos fundamental, médio e técnico de 20 Estados do País, selecionados entre quase 300 trabalhos inscritos, nas áreas de ciências exatas e da terra, biológicas, da saúde, agrárias, sociais e humanas, além de engenharia e suas aplicações.
Sérgio Fernandovich Chevchenko, o jovem cientista, é um dos nove autores de projetos contemplados com o prêmio mais cobiçado da feira (a vaga e as passagens), proporcionado pela Intel do Brasil (patrocinadora oficial da Febrace) para participar da competição internacional Intel International Science & Enggineering Fair (Isef), a maior feira de ciências pré-universitária do mundo, que ocorre em maio, na cidade de Portland, nos Estados Unidos. O evento reúne jovens cientistas e inventores de aproximadamente 40 países e oferece US$ 3 milhões em prêmios e bolsas de estudo.
Criação e inovação - Segundo a idealizadora e coordenadora-geral da feira, Roseli de Deus Lopes, que também é professora do departamento de engenharia de sistemas eletrônicos da Poli, os temas focais da Febrace são a criatividade e a inovação da pesquisa. Os trabalhos inscritos podem ser desenvolvidos individualmente ou em grupo de, no máximo, três estudantes, selecionados por um comitê formado por profissionais especializados nas áreas abrangidas. Expõem na feira só os finalistas.
A premiação principal é feita por categoria, mas as empresas e instituições parceiras da Febrace também distribuem prêmios, que vão desde bolsas de cursos de línguas e estágios até livros e equipamentos de informática. No caso da participação na Isef, a seleção é realizada de acordo com os critérios da feira internacional. Segundo o gerente de programas de educação da Intel, Ruy Rodrigues de Castro, os trabalhos que apresentam inovação e alcance de uso em termos sociais têm maiores chances de serem selecionados.
Sujeitos criativos - Roseli de Deus idealizou a Febrace depois de ter participado como jurada da Isef. “Sempre me envolvi em eventos de natureza científica e sentia falta de um que abrangesse a comunidade pré-universitária”, conta. Com o apoio da Intel do Brasil, colocou a idéia em prática.
Na sua primeira edição, ano passado, a iniciativa reuniu em São Paulo cerca de 200 estudantes dos ensinos fundamental e médio de 12 Estados; neste ano mais do que dobrou a participação. “Esse tipo de feira estimula o estudante. A gente lança uma provocação e ele revela sua enorme criatividade.”
Segundo a professora, as feiras realizadas nas escolas, em sua maioria, apresentam experiências superficiais, que apenas reproduzem o que está descrito nos livros. “A universidade precisa sofrer uma dose de reestruturação para receber sujeitos criativos. A idéia é que os estudantes cheguem à instituição com iniciativas fortalecidas”, espera a professora.
Jovem russo quer mostrar seu trabalho a cientistas do mundo todo
Aluno do Centro Federal de Educação Tecnológica de Pernambuco (Cefet-PE), Sérgio Chevchenko é russo e vive no Brasil há cinco anos. Fala bem o português e encontrou apoio na Universidade Federal de Pernambuco para desenvolver o projeto que inscreveu na Febrace, na categoria ciências exatas e da terra-ciências da computação (individual). “Os profissionais do Cefet ajudaram bastante, cedendo a estrutura e o material para que eu pudesse realizá-lo”, conta o estudante.
Segundo o jovem, a conquista do prêmio representa a oportunidade de ampliar contatos com pessoas que têm os mesmos interesses. Esse movimento iniciado na feira brasileira objetiva mostrar o trabalho a cientistas do mundo todo. “A Isef recebe a visita de pessoas interessantes, até de ganhadores do Prêmio Nobel”, observa Sérgio, empolgado com a viagem.
Para sua vida profissional, planeja trabalhar como pesquisador na área de inteligência artificial, direcionada para a robótica e, num futuro próximo, ampliar o programa premiado para que, além de achar soluções, ele possa escolher seus objetivos. “Antigamente eu julgava um robô pela sua função, mas por trás do que ele faz tem um cérebro”, constata o futuro cientista.
O interesse pelo assunto surgiu do contato com um engenheiro de sua cidade natal, conhecida como Star City, por abrigar a Agência Espacial Russa. Sérgio se decidiu pela matéria depois de ler um livro escrito e emprestado pelo engenheiro (autor de várias obras a respeito do tema dirigido ao público jovem), que ainda é professor de robótica para crianças.
O avô, também engenheiro e aposentado da agência espacial soviética, é outra influência forte na vida do garoto. “Ele tinha uma oficina em casa e, quando criança, eu o acompanhava nas suas experiências e costumava colar motorzinho em madeira para fazer barquinhos”, recorda o aluno.
(Imprensa Oficial)