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Ética e multimídia. Foi este o tema escolhido pelo filósofo Mario Sergio Cortella para a conferência de abertura do 5º Seminário Nacional “O Professor e a Leitura do Jornal”, na Unicamp. “Nenhum professor, seja da escola pública ou da privada, está preparado para trabalhar com as diferentes mídias atuais. Quando o Brasil foi penta na Copa de 2002, não existia a palavra ‘blog’; hoje é criado um blog por minuto. São plataformas novas, que trazem novas formas de pensar, a fim de não confundir informação com conhecimento. Precisamos ter a humildade pedagógica de quem começa a aprender sobre a questão. A velocidade é alta e estamos apenas no início da estrada”.
Na opinião de Cortella, docente da PUC-SP, os processos escolares não devem se adaptar às inovações e sim integrá-las ao seu cotidiano. “Adaptar é postura passiva, enquanto que integrar pressupõe metas de convergência. As tecnologias mais recentes podem fazer parte do trabalho pedagógico escolar desde que utilizadas como ferramentas a serviço de objetivos educacionais que estejam antes claros para a comunidade e que a ela sirvam. Tecnologia em si não é sinal de mentalidade moderna; o que moderniza é a atitude e a concepção pedagógica e social que se usa”.
O filósofo, que participa do seminário na Unicamp desde as primeiras edições, insiste na visão de que a tecnologia não é uma mera ferramenta. “Ela é instrumento político de ação, à medida que interfere na vida da sociedade. Não há neutralidade no uso de qualquer tecnologia, seja de natureza ideológica, científica ou preconceituosa. Isso significa que é preciso proteger a utilização da tecnologia com princípios éticos – e o mais importante deles talvez seja a preservação de uma convivência coletiva decente, aquela que não diminui a vida alheia”.
Mario Sergio Cortella defende o amparo da tecnologia por valores éticos para evitar o que chama de biocídio – o assassinato da vida nas suas múltiplas formas. “A tecnologia, por ser também ferramental (embora não exclusivamente), pode ajudar a proteger a vida no seu conjunto, ou então contribuir para a sua destruição, com o falecimento do futuro, a desertificação da esperança e a anulação de uma história. E o professor, para amparar a tecnologia, deve ter três qualidades: generosidade mental, repartindo o que sabe; coerência ética, praticando o que ensina; e humildade intelectual, perguntando o que ignora. Assim, a tendência será de que o biocídio fique longe do nosso horizonte”.
Três dias de atividades
O seminário nacional, que começou nesta quarta (14) e vai até sexta-feira no Centro de Convenções, é organizado pela Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, em parceria com a Associação de Leitura do Brasil (ALB), Rede Anhanguera de Comunicações (RAC) e Associação Nacional de Jornais (ANJ). “Registramos em torno de 500 inscrições, principalmente de Campinas e região, mas também do restante do país. É um público muito gratificante para a organização. São três conferências, nove mesas-redondas, 111 trabalhos nas sessões de comunicação e dez oficinas com várias temáticas”, informa Norma de Almeida Ferreira, docente da FE e presidente da ALB, que coordena o evento .
Segundo a coordenadora, os principais objetivos desta 5ª edição, sob a temática “Educação mídia e formação docente”, são promover o diálogo do jornal com outras mídias tendo como horizonte o processo de formação dos professores e a prática pedagógica; e incentivar o debate sobre conteúdos e modos de produção, veiculação e recepção da mídia nos espaços escolares. “A mídia é uma instituição que não apenas informa, ela também forma. Daí, a importância de conhecer a função e as tecnologias da mídia para seu uso tanto na formação do docente como nas atividades dos alunos em sala de aula”.
Unicamp na rede de ensino
Presente à cerimônia de abertura, o professor José Tadeu Jorge, ex-reitor da Unicamp e atual secretário da Educação de Campinas, ressaltou a contribuição do seminário para a qualificação do ensino fundamental. “É clara a necessidade de melhoria na capacidade de leitura e compreensão de texto por parte dos nossos alunos. Eventos como este ajudam no desempenho, como mostra o crescimento do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] no que se refere a língua portuguesa. E agora houve uma ampliação da temática para todas as mídias, dando uma dimensão maior e mais próxima da realidade que os alunos vivenciam hoje”.
À frente da Secretaria da Educação, Tadeu Jorge observa uma intensificação da parceria da Unicamp e de outras universidades com a rede municipal de ensino. “A rede possui um centro de formação de professores, onde são criadas oportunidades para que eles mantenham seus conhecimentos atualizados, tanto em cursos de extensão como no estímulo ao mestrado e doutorado. Identificando temas que lhes são importantes, os professores podem se qualificar e melhor transmitir conhecimentos para a formação dos alunos”.
Crédito: Antoninho Perri Edição das imagens: Luis Paulo Silva (Envolverde/Unicamp)
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