Fórum propõe plano de luta pelo ensino público
Por Mário Osava
Rio de Janeiro - Defender o ensino público como um direito humano "para toda a vida" e rejeitar sua mercantilização são alguns dos princípios contidos na carta aprovada na terceira edição do Fórum Mundial de Educação, que terminou no sábado em Porto Alegre. O documento "Construindo uma Plataforma Mudial de Luta" menciona 16 orientações para que se promova uma "educação emancipadora em todos os níveis", gratuita, universal e de qualidade, sendo "obrigação do Estado" assegurar seu financiamento.
Os educadores, reunidos durante a semana passada na capital do Rio Grande do Sul, também rejeitaram os acordos nacionais e internacionais que tratam a educação como mercadoria e, também "os programas de ajuste estrutural que pressionam governos" a reduzirem investimentos na área social. Por outro lado, chamaram para uma mobilização mundial que exija igualdade de gênero e o fim das discriminações nas escolas, democratização da gestão e valorização dos trabalhadores da educação, além de incentivos ao protagonismo infanto-juvenil na produção do conhecimento.
O Fórum Mundial de Educação (FME), que desde 2001 acontece em Porto Alegre, teve nesta edição a participação de mais de 22 mil pessoas de 48 países. Três conferências, cinco debates temáticos e 79 atividades autogestionadas, incluindo seminários, oficinas, encontros e depoimentos permitiram as discussões sobre o tema geral "A educação para que outro mundo seja possível". Mais de dois mil painéis foram apresentados com mensagens sobre temas variados e também serviram com contribuição para a Plataforma de Luta. O documento final "é provisório", porque a plataforma continua em construção, afirmou o francês Bernard Charlos, um dos 29 membros do Conselho Internacional do FME.
O fórum enfrenta três grandes desafios no futuro imediato, afirmou Charlot na cerimônia de encerramento: estreitar seu vínculo com o Fórum Social Mundial (FSM), tornar-se mundial e "ir além do discurso", passando da afirmação de princípios para uma plataforma de lutas. O FME nasceu em outubro de 2001 e sempre aconteceu em Porto Alegre, sede também do FSM, que tem objetivos mais amplos de promover "outro mundo possível" reunindo a sociedade civil. O FME até agora foi "muito americano e brasileiro" e terá de ser realizado na África e na Ásia para tornar-se mundial, ressaltou Charlot. Sua próxima edição ainda não tem data nem local definidos pelo Conselho Internacional. Entretanto, Porto Alegre "quer que permaneça aqui", afirmou Francisco Rodríguez, educador local que coordenou a organização do encontro.
Na última conferência do III FME, sobre "solidariedade, democracia e paz", o francês Bernard Cassen, diretor do jornal Le Monde Diplomatique e membro do Conselho Internacional do FSM, assinalou a necessidade de resgatar o significado destas e outras palavras que foram distorcidas ou negadas pelo pensamento liberal, "um vírus anestésico que infectou todas as mentes". Os "trabalhadores do conhecimento", como educadores e intelectuais, segundo ele, devem "desmantelar as defesas ideológicas do neoliberalismo" como contribuição para "outro mundo possível", lema do Fórum Social Mundial. "Solidariedade não pertence ao vocabulário liberal, que só reconhece indivíduos, "destruindo a idéia de sociedade", exaltanto as fortunas individuais e reduzindo a vida ao consumo, afirmou Cassen. A democracia foi sacrificada em favor da "esfera econômica e financeira" e a paz se obtém pela guerra, segundo o pensamento liberal, que, por isso, sempre necessita ter um inimigo, que agora é o terrorismo, sucessor do bloco soviético, acrescentou o jornalista.
Em outro evento do FME, também o uruguaio Hugo Rodríguez chamou a atenção para "o risco das palavras". Algumas ditaduras se implantaram sob o pretexto de restaurar a democracia, e a insistência em dizer que educação "é um investimento", e não um gasto, levou à atual obsessão por "medir a rentabilidade" do ensino, ressaltou. Antes educava-se para a solidariedade, agora, se faz para que alguém seja "competitivo", com uma mudança total de valores, acrescentou, para realçar a importância da linguagem. Por sua vez, Marcelo Rezende Guimarães, professor de pedagogia de uma universidade de Porto Alegre, disse que a escola tem de ensinar também direitos humanos, desobediência civil, como organizar manifestações. Em sua opinião, já há sinais do "outro mundo" nas grandes marchas e movimentos pacifistas, nos fóruns que se multiplicam e nas campanhas pelo desarmamento.
Este FME teve cobertura jornalística de 96 alunos de 27 escolas públicas da capital gaúcha. "Estamos fazendo reportagens para rádios comunitárias, periódicos impressos, vídeo e Internet", contou à IPS Maximiliano Franco, de 14 anos e aluno da oitava série. Em seu caso, procurou fazer entrevistas para rádio. "Aprendi muito, nunca havia feito isto", afirmou. Pamela Cristina dos Santos, de 13 anos, também da oitava série, fez textos diários, online e impressos. "Aprendemos mais do que na sala de aula, assistindo as conferências, conversando com os participantes, conhecendo outras pessoas", afirmou.(IPS/Envolverde)