Freire e a Desconstrução do Estado Mínimo
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
O advento da internet e, em concomitância, das redes sociais fez surgir, em uma grandeza exponencial, os "especialistas em tudo" — isto é, pessoas que explicitam suas opiniões balizadas em falácias e/ou achismos fundamentados por grupos extremistas que vivem de um parasitismo narrativo[1]. O problema não se encontra nesses oportunistas que se aproveitam da falta de discernimento de seus eleitores (ou, como se afirmava na Primeira República, do "curral eleitoral"); o problema reside justamente nesses eleitores que tentam convencer seus pares por meio de discursos emanados por esses vis políticos que flertam com o neofascismo.
O extremismo está tão aflorado na sociedade que basta falar sobre o legado de Paulo Freire para que o indivíduo seja criticado e até mesmo estigmatizado como "comunista". Curiosamente, quem faz esse tipo de acusação sequer possui o mínimo de conhecimento sobre tal conceito, explicitando, assim, toda a sua arrogância e imbecilidade sobre o tema. Paulo Freire nos deixou um legado baseado em uma educação contextualizada, isto é, capaz de conectar a realidade dos alunos ao que está sendo ensinado, promovendo uma leitura de mundo e incentivando-os à pesquisa, bem como à investigação das estruturas de poder.
O ato de pensar criticamente faz com que o discente perceba as nuances da manipulação, da demagogia e de uma política execrável. Desse modo, tais agentes políticos surgem com discursos de que o Estado Mínimo é uma forma de reduzir a corrupção, quando, na verdade, a corrupção é o cerne dessa própria política — evidenciada por governantes que enriquecem em apenas quatro mandatos, sem contar o mecanismo do orçamento secreto, um dos modelos mais efetivos de desvio institucionalizado.
Sendo assim, é por meio da educação freiriana que conseguiremos desenvolver em nossos alunos o seu poder transformador, já que a educação deve ser vista como ação transformadora, conforme ressaltei em minha última obra, intitulada O Projeto Da Ignorância: Imposição estrutural sistêmica e a imobilidade social no Brasil (Ícone Editora, 2026). Dito isso, a consciência de classe e a consciência política darão o discernimento necessário para que o aluno tenha um melhor entendimento do Estado Mínimo defendido pelos extremistas conservadores em contraposição ao modelo defendido pelos progressistas, compreendendo em qual situação ele se encontra e qual projeto deveria defender com conhecimento de causa — e não como alguém a ecoar estultices ditas por manipuladores em seus currais.
Dessa forma, o aluno precisa entender que, quando se prega a expansão do papel do Estado (Estado Máximo), a ideia é reduzir as desigualdades sociais e garantir ao povo seus direitos fundamentais. Isso ocorre porque o Estado Máximo representa um Estado forte, ou seja, um Estado de Bem-Estar Social. Este modelo combate à desigualdade por meio de impostos progressivos (quem ganha mais, paga mais), financia serviços que ajudam a redistribuir a riqueza de forma justa, garante direitos básicos como saúde, educação, moradia e transporte, regula o mercado para evitar monopólios, freia a destruição ambiental e combate de forma acirrada a exploração dos trabalhadores. É esse tipo de estrutura que viabiliza políticas afirmativas e programas de transferência de renda, protegendo minorias e grupos de alta vulnerabilidade.
Vale ressaltar que, em momentos de crise, é o Estado Forte que estabiliza a economia. Todavia, os extremistas, por meio do medo, buscam dissuadir a sociedade propagando que a presença estatal fará o país quebrar. Na retórica do extremista de direita, o Estado gasta muito; contudo, a realidade demanda investimentos robustos no país. Para o extremista, o país só evolui quando o pobre consome menos, com menos educação, menos saúde pública e menos lazer. Em contrapartida, no modelo de desenvolvimento que contrapõe o extremismo, o investimento público em rodovias, ferrovias, portos e fomento a novas empresas — apesar de exigir aportes de bilhões — gera empregos, novas ofertas de mercado e, obviamente, o poder de compra que alimenta a economia.
Ensinar consciência de classe e consciência política a nossos alunos não é doutrinação. Doutrinação é impor uma educação pretensamente neutra — a qual posso afirmar que não existe, conforme demonstrado no livro A Educação e a Não Neutralidade (Ícone Editora, 2024). A doutrinação real ocorre quando a escola, em vez de desenvolver o protagonismo cognoscente de nossos alunos, serve como uma instituição alienadora para que se perpetue esse câncer da sociedade denominado neofascismo.
[1] http://www.gestaouniversitaria.com.br/artigos/o-parasitismo-narrativo-na-politica-o-medo-como-moeda-eleitoral