22/04/2004

Infância: É preciso desarmar a televisão


Como reduzir a violência na televisão e os jogos eletrônicos é um desafio que está sendo discutido na IV Cúpula Mundial da Mídia para Crianças e Adolescentes, que acontece durante toda esta semana no Rio de Janeiro. Cerca de dois mil especialistas, pesquisadores, educadores, dirigentes de meios de comunicação e produtores discutirão formas de melhorar a qualidade da comunicação dirigida à infância e adolescência, analisando seus problemas e trocando experiências interessantes.

Pela primeira vez a cúpula acontece na América Latina, e isso faz desse fórum uma oportunidade para questionar um mercado internacional em que os países em desenvolvimento apenas são consumidores de "lixo" audiovisual exportado principalmente por Estados Unidos e Japão, disse à IPS Claudius Ceccon, integrante do Comitê Diretor da Cúpula. "Poderemos mostrar que temos capacidade de produção e que as crianças do Primeiro Mundo têm direito a conhecer nossa diversidade cultural", para que os produtos brasileiros e latino-americanos tenham acesso a outros mercados, acrescentou.

As cúpulas tiveram início em 1995, por iniciativa de um grupo australiano encabeçado pela cineasta Patrícia Edgar, que incentivou a produção cinematográfica local de qualidade e conseguiu espaço na televisão para divulgar culturas nacionais. O primeiro encontro, com 637 participantes de 71 países, limitou-se à televisão e aconteceu na cidade australiana de Melbourne. Seus organizadores se deram conta da necessidade de criar um movimento internacional inclusive para assegurar o sucesso australiano, segundo Ceccon. Por essa razão, a segunda cúpula foi realizada em Londres, em 1998. a seguinte, já ampliada aos meios de comunicação em geral, aconteceu em 2001 na cidade grega de Salônica.

Os fóruns são promovidos pela Fundação Cúpula Mundial da Mídia para Crianças e Adolescentes, presidida por Patrícia Edgar. No Rio de Janeiro, o encontro é patrocinado pela prefeitura local e organizada pela Empresa Municipal de Multimídia (MultiRio, estatal) e por três organizações não-governamentais. Apesar da preocupação com os meios em geral e especialmente os mais recentes, como a internet, a televisão ainda concentra as atenções por ser o de maior audiência e exercer uma influência cotidiana. As crianças brasileiras entre 2 e 6 anos passam "mais tempo diante da televisão do que junto de suas mães", disse à IPS Marcio Schiavo, que participa da cúpula como especialista em "publicidade social", ou seja, em incluir mensagens educativas ou debates sobre temas da realidade, como as drogas ilegais, em telenovelas ou outras obras de ficção.

Um estudo feito por sua empresa de consultoria sobre comunicação, Comunicarte, concluiu que o problema não é o "excesso de televisão", mas que "falta família", isto é, houve uma excessiva redução na relação entre pais e filhos, explicou Schiavo. Os pais e mães "renunciaram às suas atribuições" na formação das crianças, cedendo-as aos meios de comunicação, por comodidade, criticou. A violência e o erotismo, de forte presença na comunicação, são temas polêmicos do fórum, como elementos que estimulam idéias de algum controle social sobre os meios de maior impacto na infância. "As pessoas se queixam da má qualidade da televisão, mas não sabem como melhorá-la", afirmou Ceccon, diretor da produtora de audiovisuais Centro de Criação de Imagem Popular (Cecip), justificando a necessidade de ampliar a discussão sobre a forma de controle deste meio de comunicação pela sociedade.

"Não se trata de censura, com querem os moralistas de pouca visão, e tampouco significa que não gostamos de televisão", alegou. Porém, já são muitos os estudos sobre a enorme quantidade de fatos violentos que contaminam produtos "com aparente inocência", como os desenhos animados que mostram agressões como motivo de risos. Ceccon criticou duramente o "lixo que as produtoras, especialmente as norte-americanas e japonesas, impõem a preços muito baixos às televisões de países em desenvolvimento".

Também os programas infantis brasileiros, como os da apresentadora e cantora Xuxa, são "pura publicidade do consumismo, da venda de roupas e sandálias da marca Xuxa", mas é possível criar mecanismos, por exemplo, através de conselhos representativos da sociedade, para que os meios de comunicação contribuam para o desenvolvimento da infância e não só do consumo, afirmou.
Também se deve desenvolver uma visão crítica na população, e para isso é importante unir os meios de comunicação e a educação, acrescentou Ceccon, que realiza projetos nos quais crianças produzem vídeos. (IPS/Envolverde)

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