Internacionalização coloca em risco a qualidade do ensino superior público
Por Oscar D' Ambrosio
O levantamento das perspectivas positivas e negativas da internacionalização do ensino superior foi o tema do trabalho de Daniela Domingues Barbosa, assistente técnica da Assessoria de Relações Externas (Arex) da UNESP. O estudo foi realizado no âmbito do Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas, oferecido em conjunto pela UNESP, Unicamp e PUC-SP, para obtenção do grau de especialista em Negociações Econômicas Internacionais.
Com o título Internacionalização e o ensino superior brasileiro: impasses e perspectivas, o trabalho teve a finalidade de identificar, por uma análise histórica e comparativa, os impasses e as perspectivas que o processo acelerado de globalização e a conseqüente internacionalização do ensino superior começam a impor ao ensino superior brasileiro.
A pesquisa discorre inicialmente sobre a evolução histórica, a estrutura e organização e as políticas governamentais no ensino superior do Brasil. Em seguida, discute a educação como fator de desenvolvimento, a internacionalização do ensino superior, e o Brasil perante as regras da Organização Mundial de Comércio (OMC) e do General Agreement on Trade in Services (GATS).
O principal foco, porém, recai sobre as oportunidades e riscos envolvendo as variáveis da globalização e internacionalização. Defensores do GATS, como o Fórum Europeu de Serviços e a Mesa-Redonda Européia de Industriais, por exemplo, argumentam que, com a internacionalização da educação, as condições do mercado naturalmente dirigem o preço da educação para baixo e a qualidade para cima. "O argumento é que o mercado promoverá a eficiência e o rápido desenvolvimento do setor", afirma Daniela.
Para os países pobres, por outro lado, os riscos são tão grandes quanto as possibilidades que se abrem. "A comercialização da educação superior dá mais importância aos benefícios econômicos do que aos acadêmicos e sociais", aponta Daniela. "Isso permite que sistemas de ensino público superior ainda em desenvolvimento, como ocorre na Costa do Marfim, sejam destruídos pela competição estrangeira. Além disso, a universidade pode perder seu caráter de instituição neutra e autônoma e os objetivos de políticas nacionais de educação correm o risco de ser colocados em segundo plano."
O grande desafio de cada sistema de ensino nacional, para a pesquisadora, estaria em saber maximizar as oportunidades de desenvolvimento e minimizar os riscos inerentes à globalização. "Nesse processo, peca o país que não convida para o debate todos os atores envolvidos no universo da educação", diz. "O problema do Brasil é justamente a ausência de um fórum único para que as classes acadêmica e política possam debater e se posicionar conjuntamente perante a educação, de modo geral, e a superior, em termos específicos, questões primordiais e prementes para o País."