28/02/2004

Jovens da periferia comparam relações sociais com uma senzala


Conceitos como quilombo, senzala e casa-grande ainda fazem parte do cotidiano de jovens da periferia da maior e mais rica cidade do País. Em uma pesquisa com moradores do distrito do Capão Redondo, na periferia da zona Sul paulistana, a pesquisadora Lourdes de Fátima Bezerra Carril constatou que alguns deles - sobretudo os que gostam e fazem rap - comparam as relações sociais e espaciais da cidade com uma senzala.

"Mas ao mesmo tempo existe também a idéia de quilombo: é a resistência, a luta contra a opressão. E é nesse quilombo que ocorre o nascimento de possibilidades próprias, como o rap e a literatura marginal", conta a pesquisadora, autora do doutorado Quilombo, favela e periferia: a longa busca da cidadania apresentado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O estudo envolveu três bairros do distrito do Capão Redondo: o Conjunto Habitacional Chico Mendes, da CDHU, a Cohab Adventista e a favela de Paranapanema. Lourdes de Fátima entrevistou moradores, integrantes de associações de bairro e de organizações não-governamentais da região enfocando a questão racial. Também analisou letras de músicas de rap e o livro Capão Pecado, do escritor Ferréz, criador do Projeto Literatura Marginal.

"Foi possível constatar, principalmente nas letras de rap e no depoimento de alguns alunos de cursinhos pré-vestibulares afrodescendentes, que o próprio bairro é encarado como uma senzala, pois é lá onde estão concentrados os negros", relata Lourdes de Fátima. "Locais próximos ao Capão Redondo, como o Morumbi, por exemplo, são encarados como a casa-grande." A pesquisadora afirma que esse quilombo urbano também traz a possibilidade de reintegração do excluído, de buscar o jovem usuário de drogas e de tirá-lo do vício e do tráfico.

Lourdes de Fátima explica que encontrou diferenças nos aspectos raciais e de renda nos bairros analisados. No CDHU Chico Mendes, 40% dos moradores se autodenominaram brancos, 10% negros, 20% pardos e 30% morenos/amarelos. Já na favela Paranapanema foram 20% brancos, 20% negros, 40% pardos e 20% morenos/amarelos. Nos três bairros a renda familiar não ultrapassa cinco salários mínimos. Na favela, apenas 20% dos moradores ganham esse valor. No CDHU, esse índice é de 70%.

"Houve uma espécie de confinamento de negros pobres", afirma Lourdes de Fátima. "Quando os rappers falam em quilombo, senzala e casa-grande estão na verdade denunciando essa segregação." Para a pesquisadora, tanto a escola pública, que deixou de ser formadora de cidadãos, como a ausência de políticas públicas de recuperação social abrangentes e o enfraquecimento de movimentos sociais na década de 90 são alguns dos fatores que contribuíram para o agravamento da estrutura social e racial brasileira.

(AgênciaUSP)

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